Sargento Davi

Praça Silvio Romero, São Paulo, SP

policialsite

Uma preocupação que tenho quando vamos pra rua gravar é a de ter que convencer algum membro do Pequeno Poder – guardinhas, vigilantes e todo tipo de gente que tem uma semi autoridade sobre algum lugar e diz que “trabalha com o público” quando são perguntados sobre o que fazem da vida, o que estamos fazendo e se temos autorização pra isso.

Quando eu fazia o Me Dê Um Conselho já tive que me explicar algumas vezes. Sempre tentei evitar essas figuras porque é um saco falar com quem não te ouve e, além disso, não sei manter uma boa conversa no gerúndio.

Na semana passada, estivemos na Praça Silvio Romero e talvez eu devesse ter me lembrado disso quando decidimos que o lugar para fazer a filmagem seria exatamente ao lado de uma base da Polícia Militar. Naquele dia havia uma feira acontecendo na praça e o único lugar livre que nos sobrou foi aquele.

Bastaram alguns minutos para que dois policiais se aproximassem. Fiquei tenso e só ouvi o nome do primeiro: “Sargento Davi, tudo bem com vocês?”, disse o simpático oficial enquanto estendia a mão pra mim. Ok, são policiais de verdade, nada de pequeno poder aqui, mas mesmo assim preferi ficar na minha e deixar a Adriana usar sua simpatia para convencê-los a nos deixar continuar ali.

Ele perguntou o que era aquilo e, pra minha surpresa, achou muito legal e quis saber como poderia fazer para assistir aos vídeos. Demos um cartãozinho com o nosso site pra ele, que nos garantiu que iria entrar e acompanhar o projeto.

“Que ideia legal! É muito bom conhecer os outros, né? Gostei!”. Diante do entusiasmo do PM, até fizemos um convite pra que ele participasse, mas ele negou de cara porque disse precisaria de uma autorização pra isso. Uma pena, acho que teria sido bacana conversar com ele.

Daniel

Postado dia 11 de maio de 2015
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Francisco

"Quanto mais carne se come, mais se mata"
50 anos
Vale do Anhangabaú, São Paulo, SP

Postado dia 20 de março de 2015
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Negro Bússola

"Quando eu ouvi os Racionais MC's cantando sobre Steve Biko e Martin Luther King, eu quis saber quem eram esses heróis negros"
41 anos
Vale do Anhangabaú, São Paulo, SP

Postado dia 09 de março de 2015
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Ocion e João Victor

34 e 14 anos
XI Bienal do Livro do Ceará, Fortaleza, CE

Um menino triste e seu pai herói

Tínhamos decidido recolher os equipamentos quando Ocion pediu para falar com a gente. Estávamos na Bienal do Livro do Ceará, em Fortaleza, e aquela tarde já havia sido muito produtiva – entrevistamos um sujeito que nos matou de rir, Gerardo, e uma menina encantadora, a Letícia, além de outras figuras que vocês ainda vão conhecer. A noite já avançava, estávamos suados, cansados, famintos e nutríamos o doce sentimento do dever cumprido, mas resolvemos fazer mais uma entrevista. E, na sequência, mais uma. Ainda bem, porque vivemos, ali, uma das experiências mais arrebatadoras do Fale com Estranhos.

À primeira e corriqueira pergunta, “Quem é você”, Ocion citou os dois filhos, João Victor e Vitória. “São os dois maiores troféus da minha vida”, disse. Presto bastante atenção a essa resposta. Acho que ela diz muito a respeito da escala de valores do entrevistado. Quem, de cara, revela a profissão mostra o quanto o trabalho é importante na sua vida. Já quem fala dos filhos não deixa dúvidas de que eles ocupam o centro da sua existência. Isso é puro achismo meu mas, no caso de Ocion, tenho certeza de que a minha tese se comprova.

Ocion é policial militar em Fortaleza. Talvez seja tido, por alguns de seus pares, como um cara que gosta “desse pessoal dos direitos humanos”, porque algumas vezes se pergunta os motivos que levam um bandido a ser um bandido. Demonstra arrependimentos, como na noite em que enxotou um criminoso ensanguentado que cambaleava numa rua próxima à sua casa. Reparem no olhar de Ocion quando ele lamenta não ter oferecido um copo de água ou uma camisa ao rapaz. Se não mencionasse a “briga interna” que o “bem e o mal” travam dentro dele, aquele olhar seria suficiente para dar o recado.

Nas batalhas mais práticas que trava no dia-a-dia da profissão – já viu um tiro passar a poucos centímetros de sua cabeça – Ocion lida com o terror de faltar para os filhos. Achei isso tocante. Mas só compreendi a real dimensão do medo quando ouvimos João Victor, seu filho.

“Sou um menino de família humilde”, ele se definiu. “Não tive muita convivência com a minha mãe”, continuou. Em menos de um minuto, começou a chorar. Passou a entrevista inteira lutando contra as lágrimas, que insistiam em interromper o fluxo da narrativa.

Quando era pequeno, João saiu de bicicleta com o pai e, na volta, encontrou a casa vazia. Foi abandonado pela mãe, que se mudou para Goiânia. João não fala abertamente sobre a dor do abandono, mas ela é clara. Mais tarde, o pai se casou novamente. Sobre a madrasta, ele diz: “Ela não desistiu de mim”.

O fim do vídeo é, pra mim, o momento mais comovente. João conta uma experiência inversa a que teve na volta para casa com o pai, quando encontrou tudo vazio. Na história mais recente, o final é feliz. “Eu me alegrei demais”, ele ri, finalmente.

O que mais nos impressionou, além do relato forte de pai e filho, foi a cumplicidade entre eles. João não ouviu a entrevista de Ocion – e, na vez do menino, o pai preferiu se afastar para longe. Ao fim, os dois saíram andando abraçados pelo saguão do Centro de Convenções, até alcançar a porta que levava à rua e fugir do alcance da nossa vista. Justamente por causa dessa cumplicidade, o Daniel optou por fazer uma edição diferente a que vocês estão acostumados. Esta é a primeira vez em que duas pessoas aparecem no mesmo vídeo.

Não pude deixar de pensar em como João Victor precisa do pai. Precisa muitíssimo. E como é cruel que Ocion exerça uma das profissões mais arriscadas do país.

No dia seguinte à entrevista, João Victor completou 14 anos. Tomara que ele tenha tido um aniversário bacana como na vez em que foi comprar sanduíches na esquina de casa.

Adriana

Postado dia 16 de janeiro de 2015
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