O meu porquinho-da-índia

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Eu devia ter ali pelos dez anos quando, na escola, uma garota me perguntou se eu gostava de poesia. Respondi que sim e ela me pediu para citar o meu poema preferido. Estufei o peito e recitei os versos de Porquinho-da-índia, do Manuel Bandeira, que eu orgulhosamente sabia de cor. A menina me olhou com uma cara estranha, talvez me achando meio esquisita – como assim, o porquinho-da-índia foi a sua primeira namorada? – e disse que não era nada daquilo, poemas eram versos como “não machuque o meu coração, você pode estar dentro dele”, que ela tinha aos montes anotados em um caderno cheio de rosinhas e outros adornos.

Senti tanta vergonha, mas tanta, que nunca mais me esqueci do episódio. Anos depois, trabalhando em redação, me senti inúmeras vezes na mesma situação. Em vez de porquinhos-da-índia, minhas obsessões eram outras, a maioria tida como fora de moda, velha e sem graça. Ir pra rua? Por favor, isso era para uma época em que não existiam telefones celulares e nem Google. Antes das reuniões de pauta, uma colega me dizia, em tom de piada, que eu não deveria mencionar, jamais, comunidades ribeirinhas do Amazonas. Índios? Só se a intenção fosse provocar uma demissão, no caso a minha. “Dá uma sacada no Pinterest, fuça alguma coisa nos sites descolados da gringa”, me recomendavam, na melhor das intenções (obrigada, meus amores). Nada de porquinho-da-índia, só “não machuque o meu coração”.

Claro, estou sendo injusta e generalista – muitas vezes tive editores que ainda acreditavam que jornalismo se faz na rua. Salve, Jefão. Ressalva feita, o fato é que, de uma forma geral, o pensamento era de que não havia mais nada a ser descoberto que uma outra pessoa, mais esperta e antenada que todos nós, já tivesse trazido à tona. As melhores histórias estavam na tela do computador, esse papo de jornalista com calcanhar sujo era uma nostalgia besta, “que coisa mais anos 70”. Fora que ainda era dispendiosa, porque sair da toca, quase sempre, custa caro.

Pois bem. Todo esse nariz-de-cera é para dizer o seguinte: o Fale com Estranhos é a minha redenção particular do Porquinho-da-índia. Juro: não há uma única vez em que não saiamos à rua que não voltemos com pelo menos uma história fantástica. E sabe o que é mais engraçado? A gente nem procura tanto assim. Ficamos parados, simplesmente esperando que uma história caia do céu e elas caem, aos montes, direto no nosso colo. Talvez a diferença essencial seja que estamos no lugar onde chove, e não dentro de um escritório hermético e refrigerado.

Na última quinta-feira, por exemplo, conhecemos um tetraplégico condenado a viver em cadeira de rodas que voltou a andar; duas mulheres que perderam os filhos em acidentes de carro, ambos com a mesma idade (uma coincidência que me deixou mal); um torcedor fanático do Corinthians que viajou para Porto Alegre com 5 reais no bolso apenas para ver o time jogar; um cara aparentemente maluco que vende plantas e as sustenta na cabeça, sobre uma tábua, e que responde, aos que o têm como um coitadinho: “Eu sou muito é valente”. E isso foi apenas ontem. Em quatro horas no Centro de São Paulo.

Se, em vez de enfrentar o sol, o trânsito e a poluição tivéssemos permanecido no escritório, com nossos saltos altos e camisas bem passadas, jamais teríamos descoberto essas histórias tão fantásticas. Acho, sinceramente, que a crise no jornalismo tem muito a ver com essa glamourização fútil do nosso ofício, com a preguiça, com a impressão de que o público não vai perceber os nossos truques de apuração, com a pasteurização que tornou tudo chato, insosso e falso.

Deixo vocês com a transcrição do Porquinho-da-índia, que eu lia em uma coletânea de edição vagabunda, com as folhas soltando (a encadernação era um lixo, mas cumpria o papel).

Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!

Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…

— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.

Adriana

Postado dia 12 de abril de 2015
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Emerson

"Antes eu fazia poesia para beber e comprar CD's. Hoje eu faço pra pagar o aluguel e pensão para dois filhos"
29 anos
Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, Fortaleza, CE

Postado dia 22 de dezembro de 2014
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