Às vezes é difícil

Rua da Quitanda, São Paulo, SP

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Desde que dei à luz, nunca mais li notícias que envolvam crimes contra crianças ou casos de mães que perderam seus filhos. Não dou conta. Se começo, por um esforço de romper a barreira, paro pela metade. Corro o risco de passar dias impressionada com o fato, ou acordar minhas filhas durante a madrugada para abraçá-las, na certeza de que está tudo bem. Se você tem filhos, sabe do que estou falando.

Por isso, sempre tive medo de que sentasse diante de nós alguém com um relato de violência infantil ou morte de filhos. Na tarde em que o João Vitor nos contou sobre o abandono pela mãe, quando ele ainda um garotinho menor do que a minha caçula, fiz força para não ficar pensando obsessivamente sobre aquilo, sobre as lágrimas do menino, sobre a dor, sobre a dimensão da tragédia. Naquela noite, foi a cerveja com os amigos cearenses que me salvou de uma noite cheia de pesadelos.

Dias atrás, no meio de uma conversa que seguia trivial, perguntei para Elza o que seus filhos, se é que elas os tinha, achavam de determinada atitude sua. “Eu tive um filho, mas ele morreu”, ela respondeu. Contou então que o garoto faleceu aos 19 anos, vítima de um acidente de carro. Há muitas coisas que fogem ao alcance da minha comprensão, e uma delas é como alguém pode sobreviver a uma situação dessas. Lembrei-me de quando entrevistei a atriz Cissa Guimarães, logo após a morte do filho Rafael, atropelado em um túnel do Rio de Janeiro enquanto andava de skate. Ela se mantinha firme enquanto falava sobre a dor, mas lá pelas tantas o relato começou a ficar tão triste, mas tão insuportavelmente melancólico, que eu fui a mais antiprofissional das criaturas e tive uma pequena crise de choro no meio da entrevista. Pedi desculpas, e ela as aceitou.

Eu ainda pensava sobre isso quando, logo após a conversa com Elza, Dina sentou-se diante de nós. Em menos de cinco minutos de papo ela revelou que também tinha perdido um filho. Também aos 19 anos, igualmente de acidente de carro. Se Elza parecia mais conformada, Dina deixava transparecer a dor de maneira muito evidente. Perguntei se ela ainda conseguia pensar em felicidade. Ela me disse que isso era impossível. Mas, como tem outro filho, precisa tocar a vida.

Das muitas coincidências que enfrentamos na nossa jornada falando com estranhos, essa foi a única que me perturbou. Não sou dada a crenças sobrenaturais, avisos do destino e, para meu azar, nasci sem o gene da fé. Mesmo assim, fiquei perturbadíssima com aquela dupla ocorrência de mães marcadas pela maior das tragédias, especialmente porque, naquele dia, a minha filha mais velha estava em uma viagem escolar pelo interior paulista. Como disse, não acredito em coisas do outro mundo, mas aqueles relatos me deixaram com um nó tamanho na garganta que, mal sentei para almoçar após as entrevistas da manhã, liguei para a minha filha – mas a ligação caiu na caixa postal.

Meu astral foi de mal a pior quando, no começo da tarde, entrevistamos o Renato, que contou sobre a morte do irmão. Só falta ser em um acidente de carro, eu pensei, antes que ele revelasse que fora assassinato. Por sorte, logo depois vimos o Israel, o simpaticíssimo vendedor de plantas. Pensando agora, acho que o fato de o convidarmos para dar entrevista, contrariando o inciso I do nosso regimento interno, foi, na verdade, um pedido de socorro. “Se rirem de mim, não me importo”, disse ele. “O importante é que fiz aquela pessoa dar um sorriso e esquecer dos problemas, nem que fosse por um segundo”, afirmou. Israel, meu caro, obrigada demais.

Adriana

Postado dia 30 de abril de 2015
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Dina

"Ele fazia jornalismo. Se estivesse vivo seria concorrente de vocês"
64 anos
Rua da Quitanda, São Paulo, SP

Postado dia 29 de abril de 2015
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Elza

"Meu marido perdeu o controle do carro e bateu. Meu filho morreu na hora."
45 anos
Rua da Quitanda, São Paulo, SP

Postado dia 28 de abril de 2015
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Paula e Letícia

Vale do Anhangabaú, São Paulo, SP

Postado dia 13 de março de 2015
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Essa história tem salvação?

Letícia estava morando na rua quando conheceu Paula, diarista, cujo filho mais velho vive no Centro de São Paulo, na cracolândia.

Quando as duas se aproximaram para conversar com a gente, pensei que fossem mãe e filha. Paula confirmou. Somente depois, durante a entrevista, é que ficamos sabendo detalhes da relação entre elas. Paula, a primeira a sentar-se no banquinho, contou que se tomou de afeto por Letícia e resolveu oferecer-lhe um lar– num caminho inverso ao que fez sua mãe, que a deu, ainda bebê, para uma outra família.

Não é difícil compreender como Paula se encantou por Letícia. É uma moça muito da bonitinha, charmosa e expressiva. Faz um mês que as duas moram juntas e Letícia chama Paula de “minha nova mãe” – a outra mãe, biológica, segundo diz, está presa.

De uma maneira geral, o Fale com Estranhos me provoca fortes arrebatamentos. Minha irmã, psicanalista, costuma sugerir que, talvez, devamos nos preparar melhor para estes embates. É possível que ela tenha razão, muito embora eu acredite que o exercício do jornalismo exija mergulhos profundos, quase sempre sem equipamentos de segurança.

Uma hora, bem no final, para tentar desanuviar o clima da conversa, que seguia pesado (mais pelo meu esgotamento emocional do que por qualquer outra coisa), quis saber de Letícia quais eram seus prazeres. Ela disse que gostava de música. Aceitou de pronto quando pedi que cantasse algo. Escolheu um funk de Felipe Boladão, não por acaso um MC que foi morto na periferia da Baixada Santista.

Em casa, fui procurar a letra do MC em um site de cifras. Li os versos enquanto ouvia a garota cantando (veja o trecho aqui). Foi só quando notei que, em determinado trecho da música, ela troca as palavras “meu filho” por “Letícia”, transformando a canção em uma espécie de autobiografia.

E na antiga minha mãe deu um conselho
Pra que isso, Letícia, te dou um mundo melhor.
Eu não ouvi e me sujeitei ao crime
E também aos seus regimes não sou digno de dó.

É curioso que, pouco antes, Paula havia dito que uma das razões pelas quais resolvera cuidar de Letícia fora a dó que a moça havia despertado nela.

Quando terminou de cantar, Letícia quis saber se tínhamos gostado da interpretação. “Muito”, respondemos, sinceramente. Ela se despediu com um beijo. “Cuide-se”, limitei-me a dizer. E fiquei pensando: histórias assim têm salvação? Eu não sei a resposta. E você, o que acha?

P.S. O Daniel optou por editar as duas conversas, da Paula e da Letícia, em um só vídeo, alternando os momentos de cada uma. É a segunda vez que usamos esse formato – na primeira, por coincidência, o papo era com um pai e um filho, o Ocion e o João Victor, uma das entrevistas mais tocantes do Fale com Estranhos. Para rever esta história, clique aqui.

Adriana

Postado dia 13 de março de 2015
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Giselle

"Eu conheci ele enquanto estava num relacionamento. Terminei no dia seguinte e três meses depois, nos casamos"
32 anos
Copacabana, Rio de Janeiro, RJ

Postado dia 10 de fevereiro de 2015
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Jamile

"Eu esqueci de dizer que sou adotada"
11 anos
Avenida Paulista, São Paulo, SP

Postado dia 04 de fevereiro de 2015
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Fabiane

"A minha mãe foi assassinada e nunca contou pra ninguém quem é o meu pai"
31 anos
Avenida Paulista, São Paulo, SP

Outro dia, demos uma entrevista para o jornal O Globo e uma das coisas que nos perguntaram foi se alguma pessoa já havia cantado durante as conversas. Eu disse ao repórter que ele ficaria surpreso com o tanto de gente que, além de estar disposta abrir detalhes muito íntimos da vida, também canta na frente da câmera sem o menor constrangimento.

Mas, nunca havia acontecido de alguém tocar um instrumento.

Fabiane nos encontrou na Avenida Paulista depois de ter passado a manhã tocando violão com um amigo por alguns trocados na estação Vergueiro do Metrô. “Só consegui dinheiro para um suco”, ela nos falou e completou dizendo que teve de pagar o valor da condução do próprio bolso.

Ela dividiu conosco uma história muito triste sobre sua família e, apesar dos detalhes horríveis, eu achei que ela tinha uma vibe muito positiva. Eu tenho muita admiração por quem não faz drama e nem se vitimiza mesmo diante dos acontecimentos mais barra pesada. Ela fez um relato bem direto, sem exageros e isso me ganhou.

No final do vídeo ela toca violão e canta uma música do Nando Reis, porque achou que essa letra tinha um pouco a ver com sua trajetória.

Eu acho que essa é uma das imagens mais bonitas que já fizemos até agora no projeto. Além de ter um enquadramento bastante diferente do normal, é curioso perceber a indiferença das pessoas que passam pela rua enquanto ela coloca o coração em uma música.

Daniel

Postado dia 02 de fevereiro de 2015
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