Me Dê Um Conselho

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A melhor coisa daquela exposição de desenhos que eu fiz nas estações do Metrô de São Paulo não foram os meus desenhos, mas sim o caderno de assinaturas que ficava disponível para quem quisesse escrever algo sobre o trabalho.

Essa exposição se chamava “Poptogramas” e era baseada em um livro homônimo que eu havia lançado pouco antes. Uma das pessoas que escreveu no caderno reproduziu o logotipo do livro, mas alterou o nome para “Pintogramas”. Foi ali que eu percebi que o caderno era a verdadeira obra de arte. A partir daí, o que eu queria mesmo era ouvir o que as pessoas tinham a dizer.

Essa vontade de dar voz aos anônimos, que apareceu na minha vida com aquele caderno, continua viva até hoje no Fale com Estranhos. Foram quase 10 anos entre uma coisa e outra. E, no meio disso, teve o Me Dê Um Conselho.

Imediatamente após ler os recados que deixaram para mim na exposição, comecei a pensar em como coletar outras verdades populares. Então construí uma urna, coloquei um bloco de papel em cima e saí pela cidade pedindo que escrevessem conselhos. Na verdade, o pedido de um conselho era só um pretexto para cativar as pessoas a dividirem algo comigo. O resultado foi muito maior do que eu poderia imaginar – tanto em qualidade quanto em quantidade, porque no final do processo recebi mais de 3 mil conselhos.

Em 2012, eu lancei um livro com uma parte desses conselhos. Acontece que eu tenho tantas coisas que não entraram nessa compilação que, agora, resolvi lançar mais um volume.

É a primeira vez que vou tentar publicar um livro usando financiamento coletivo, o crowdfunding. Se você não sabe como funciona, eu te explico: você contribui com um valor em troca do livro (ou do livro + brindes, tem todos lá no site) e se por acaso o valor necessário do projeto não for atingido, recebe seu dinheiro de volta integralmente. Sem taxas, sem pegadinhas. Basicamente, você estará comprando o livro numa pré-venda e ao mesmo ajudando a tirar o projeto do papel.

Topa me ajudar? Além de me deixar muito feliz, você vai colaborar com um projeto 100% independente e receber um livro lindão em casa!

Para apoiar, acesse: https://www.catarse.me/pt/medeumconselho

Valeu!

Daniel

Postado dia 20 de maio de 2015
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Pra que isso?

POST

Uma das perguntas mais recorrentes sobre o Fale com Estranhos é por que o fazemos. É comum que, em conversas entusiasmadas com amigos, lá pelas tantas alguém venha com a já clássica intervenção: “OK, mas… Qual é o objetivo de vocês?”.

Geralmente, antes que nos aventuremos a ensaiar alguma resposta, vêm as suposições: “É para tentar emplacar na TV?”. “Vai virar um longa?”. “É pra fazer um livro?”.

Acho que essas dúvidas têm muito a ver com uma certa incompreensão sobre o tempo em que vivemos. Mais especificamente, sobre o destino do material que produzimos – nós, essa grande massa que se denomina produtora de conteúdo e, em outros tempos, se apresentava como jornalista, designer, publicitário, videomaker. Eu, que sou do tempo em que havia trincheiras entre texto e arte, fotógrafos e repórteres, acho esse balaio de gatos excitante e auspicioso.

O Fale com Estranhos é justamente o que parece ser: um projeto de entrevistas em vídeos que alimentam um canal no Youtube e um site, além de serem compartilhados no Facebook. É para a TV? Bem, pode ser, considerando que é possível conectar sua televisão na internet e acessar o Youtube de lá.

Dia desses, o Fábio Yabu, escritor e roteirista, escreveu que a filha dele, de 4 anos, mal sabe o que são Globo, SBT e Discovery – costuma ver seus desenhos preferidos no Youtube e no Netflix. Não ocorre à menina, imagino, que todos aqueles desenhos estejam ali, aprisionados e quase envergonhados, ansiosos pelo dia em que serão descobertos por uma emissora de TV. Minhas filhas de 10 e 5 anos igualmente não sabem em que canal fica o Disney Channel na grade da Net – mas em um e outro deslizar de dedos se conectam à internet para ver Hora de Aventura, Pokémon ou aprender como se faz uma trança embutida e uma pulseira de elásticos.

Sim, o Fale com Estranhos pode render um livro, um filme, uma viagem ao Japão, um stencil, uma banda de heavy metal ou forró, qualquer coisa. Pode, inclusive, virar um programa de TV, por que não? Pode tudo, e consideramos firmemente algumas dessas possibilidades. Mas, por hora, ele é o que é: um canal de vídeos no Youtube e um site. Acreditar na necessidade de legitimação offline é não perceber como a nossa forma de consumir informação, cultura e entretenimento mudou radicalmente nos últimos anos – e como muda a cada segundo.

Lembro que, tempos atrás, quando eu trabalhava em revistas, usualmente ouvia das fontes que entrevistava: mas é pro papel ou pro site? A resposta que queriam escutar era que a matéria estaria impressa, nas bancas, e muitas vezes os assessores de imprensa nem mandavam fotos de divulgação se soubessem que a reportagem era para a internet. Hoje, em tempos de compartilhamento de notícias nas redes sociais, um comportamento desses soaria no mínimo bizarro.

Tão bizarra quanto a incompreensão de um trabalho que tenha na rede o seu destino e campo de atuação. Para meu consolo, convivo diariamente com crianças, estas sim antenadíssimas. Semanas atrás, uma delas, amiga da minha filha, me perguntou o que eu fazia. “Sou jornalista”, respondi. Ela não pareceu entender. Então fiz outra tentativa. “Tenho um canal no Youtube”. A garotinha de 9 anos mal conseguiu se conter: “Juuuuuuuuuura?”.

Adriana

Postado dia 13 de janeiro de 2015
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