O jornalismo e a vergonha

vergonha

Mostrei para um amigo jornalista o vídeo do Israel, em que eu e o Daniel aparecemos comentando os bastidores do projeto.

– Não gostei daquela parte em que você diz que tem vergonha de chamar as pessoas para darem entrevista – ele disse.
– Mas é a pura verdade, tenho mesmo. Não é que eu seja da Globo e as pessoas já saibam do que se trata. Tem toda uma história de explicar que é um site, um canal no Youtube, blablablá.
– Uma jornalista com vergonha de chamar alguém para dar entrevista? Me soa estranho – ele finalizou.

Fiquei pensando sobre aquilo. Será que eu deveria pedir para o Daniel fazer uma nova edição, sem aquele trecho? Será que o mais adequado seria escamotear esta minha fraqueza e sair por aí dizendo que “imagina, jornalista não pode ser tímido, jornalista é um tipo desinibido e cara-de-pau por natureza”? Será que depois disso nunca mais vão me chamar para fazer frilas de entrevista?

Depois de pensar por alguns minutos decidi que ia deixar o vídeo exatamente como estava. Pelo seguinte motivo: no Fale com Estranhos, a espontaneidade e a verdade são dois itens muito valiosos. Verdade, ressalte-se, que nada tem a ver com a autenticidade dos fatos, mas sim com a sinceridade como eles são contados (escrevi sobre isso meses atrás, aqui). Nesse sentido, assumir uma fraqueza como a vergonha, ainda que ela soe contraditária com a profissão que escolhi, parece-me muito coerente com o projeto. Se nossos entrevistados expõem suas dores, inadequações e angústias com tanto despudor, por que justo eu, uma das idealizadoras da história, vou bancar a durona?

Discordo também da visão segundo a qual jornalistas têm que ser Mulheres Maravilhas (ou Super Homens) cheios de si, com uma segurança por vezes cínica, que não se constrangem com nada. Acho que este modelo ruiu junto com o lide e com o mito, tão confortável para os empresários de comunicação, de que jornalistas são imparciais. O cenário ainda é nebuloso, mas tendo a acreditar que, nesta nova era, jornalistas devem ser mais humanos e acessíveis. Não tenho mais paciência para aquele tipinho de terno e gravata com um ar meio robotizado, com sua farta cultura de telepronter e um eterno olhar de superioridade. Imagino que boa parte do público também não.

E já que chegamos até aqui, reconheço: morro de vergonha de muitas, muitas coisas. Quando comecei a trabalhar na Playboy, queria morrer quando as reuniões de pauta versavam sobre grandes lábios da estrela de capa. Talvez achassem que eu sofria de algum problema circulatório, porque meu rosto vivia vermelho, prestes a explodir. Também tinha ímpetos suicidas quando meus editores na Veja (muitos, muitos anos atrás) me pediam para ligar para um economista de 80 anos às 2 da matina para checar uma informação – uma vez, um deles, acordado na madrugada de uma sexta-feira para falar algo sobre o PIB, me deu um esculacho tão grande que até hoje me dói os ouvidos.

A despeito de todas as dificuldades, acredito piamente que timidez e jornalismo não são incompatíveis. Assim como timidez e, por exemplo, artes cênicas. Nunca me esqueci de uma frase que ouvi, em 2004, do ator José Wilker, quando o entrevistei para a Playboy. Ao comentar o aparente sucesso de algumas celebridades, ele disse: “Na TV, confunde-se desinibição com talento”. Acho que no jornalismo também.

Adriana

Postado dia 18 de abril de 2015
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