Essa história tem salvação?

Letícia estava morando na rua quando conheceu Paula, diarista, cujo filho mais velho vive no Centro de São Paulo, na cracolândia.

Quando as duas se aproximaram para conversar com a gente, pensei que fossem mãe e filha. Paula confirmou. Somente depois, durante a entrevista, é que ficamos sabendo detalhes da relação entre elas. Paula, a primeira a sentar-se no banquinho, contou que se tomou de afeto por Letícia e resolveu oferecer-lhe um lar– num caminho inverso ao que fez sua mãe, que a deu, ainda bebê, para uma outra família.

Não é difícil compreender como Paula se encantou por Letícia. É uma moça muito da bonitinha, charmosa e expressiva. Faz um mês que as duas moram juntas e Letícia chama Paula de “minha nova mãe” – a outra mãe, biológica, segundo diz, está presa.

De uma maneira geral, o Fale com Estranhos me provoca fortes arrebatamentos. Minha irmã, psicanalista, costuma sugerir que, talvez, devamos nos preparar melhor para estes embates. É possível que ela tenha razão, muito embora eu acredite que o exercício do jornalismo exija mergulhos profundos, quase sempre sem equipamentos de segurança.

Uma hora, bem no final, para tentar desanuviar o clima da conversa, que seguia pesado (mais pelo meu esgotamento emocional do que por qualquer outra coisa), quis saber de Letícia quais eram seus prazeres. Ela disse que gostava de música. Aceitou de pronto quando pedi que cantasse algo. Escolheu um funk de Felipe Boladão, não por acaso um MC que foi morto na periferia da Baixada Santista.

Em casa, fui procurar a letra do MC em um site de cifras. Li os versos enquanto ouvia a garota cantando (veja o trecho aqui). Foi só quando notei que, em determinado trecho da música, ela troca as palavras “meu filho” por “Letícia”, transformando a canção em uma espécie de autobiografia.

E na antiga minha mãe deu um conselho
Pra que isso, Letícia, te dou um mundo melhor.
Eu não ouvi e me sujeitei ao crime
E também aos seus regimes não sou digno de dó.

É curioso que, pouco antes, Paula havia dito que uma das razões pelas quais resolvera cuidar de Letícia fora a dó que a moça havia despertado nela.

Quando terminou de cantar, Letícia quis saber se tínhamos gostado da interpretação. “Muito”, respondemos, sinceramente. Ela se despediu com um beijo. “Cuide-se”, limitei-me a dizer. E fiquei pensando: histórias assim têm salvação? Eu não sei a resposta. E você, o que acha?

P.S. O Daniel optou por editar as duas conversas, da Paula e da Letícia, em um só vídeo, alternando os momentos de cada uma. É a segunda vez que usamos esse formato – na primeira, por coincidência, o papo era com um pai e um filho, o Ocion e o João Victor, uma das entrevistas mais tocantes do Fale com Estranhos. Para rever esta história, clique aqui.

Adriana

Postado dia 13 de março de 2015
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Natan

"No crime, só existem dois destinos: ou você vai preso ou morre"
18 anos
Copacabana, Rio de Janeiro, RJ

Postado dia 27 de fevereiro de 2015
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Taco

"Eu posso ser meio desabonitado, mas acho que o gordinho aqui dá certo"
35 anos
Praça do Ferreira, Fortaleza, CE

Postado dia 17 de dezembro de 2014
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