Daniel

"Minha namorada faleceu. Ela tinha uma doença que parecia combustão espontânea"
18 anos
Praça Silvio Romero, São Paulo, SP

Postado dia 08 de maio de 2015
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O dia em que quase dançamos em rede nacional

danca

O Daniel me ligou:
– Convidaram a gente para participar de um programa de TV, ao vivo, no palco. Será que devemos ir?
– E por que não iríamos? -, retruquei.
– Lembra aquele cara que foi no programa da Ana Maria Braga, esqueceu de puxar o freio de mão do carro e quase a matou?
– Lembro. Por que?
– Não sei. Só sei que esta imagem me veio à cabeça na hora do convite -, respondeu o Daniel.

Por alguma razão, nenhum de nós nunca tinha visto o programa em questão. Liguei para a minha mãe, telespectadora assídua da atração. Perguntei como a coisa funcionava.

– Tem sempre alguém cantando e as pessoas dançam. Ai, Adriana, é muito animado! Eu adoro!

Fiquei bem preocupada. Posso ter algumas qualidades, mas a ginga e o talento para a dança não estão entre elas. Eu já podia me ver encolhida no sofá em posição fetal, enquanto o Carlinhos de Jesus tentava me arrastar pelo braço para a gafieira. E, depois de sucumbir para finalmente acabar com a luta, já via o meu rosto vermelho feito um pimentão refletido em milhões de telas Brasil afora, e talvez até eu tropeçasse nos próprios pés e caísse sobre a apresentadora, matando-a – a referência do Daniel à quase morte da Ana Maria Braga seria uma metáfora mediúnica.

Ligeiramente em pânico, entrei no site da emissora e li um texto que resumia o programa do dia anterior. Em determinado trecho, a matéria informava que um cantor se apresentou e, cheio de energia e entusiasmo, chamou geral pra sacolejar. “Todos caíram na dança”, informava o texto. Meu Deus.

Mandei uma mensagem no Face para o Daniel:
– Você não vai acreditar, mas as pessoas dançam no programa. Inclusive os convidados.
– DANÇAM? TODOS? – ele escreveu, assim mesmo, em caixa alta.
– Quando não dançam em pé ficam sentados, balançandinho o tronco.
– Liga pro Zylber e pergunta o que ele acha.

O Zylber também nunca tinha visto o programa.
– Ah, acho que vocês deviam ir.
– Mas será que não vai ser um mico? – perguntei.
– Não é tipo um programa do Jô, com umas pessoas sentadas no sofá, dando entrevista?
– Acho que tem sofá e entrevista, mas tem também uma atração musical e as pessoas ficam meio dançandinho.
– Velho, tem dançandinho?!? Então melhor não ir.

Mesmo assim, aceitamos. Combinamos que, se houvesse convite para dança, permaneceríamos sentados, com um sorriso meigo no rosto, e gentilmente diríamos que sofríamos ambos de unhas encravadas ou nossos pés estávamos dormentes, de tanto que ficamos na mesma posição.
– Não danço nem ferrando -, o Daniel disse.
– Tamo junto.

Na véspera do programa, a produtora me ligou. “Querida, a pauta caiu”. Notícias desse tipo – não é a primeira vez que acontece – costumam nos causar certa frustração. Naquele dia, senti algum desapontamento, mas com um gostinho especial de alívio. Finalmente, naquela noite, eu poderia dormir em paz sem ter o pesadelo de que estava rebolando diante das câmeras, feito a Carla Perez no programa do Gugu nos anos 90 (é absurdo e megalomaníaco, mas isso também me veio à mente).

Depois do cancelamento, o Daniel ligou a televisão e resolveu ver o programa no dia em que, se a pauta não tivesse caído, deveríamos estar lá. Mandou-me uma mensagem pelo WhatsApp na mesma hora:
– TÁ TODO MUNDO DANÇANDO!!!!!

Foi por pouco.

Adriana

Postado dia 07 de fevereiro de 2015
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