Nathália me fez pensar sobre o passado

site

Eu estava com fome quando a Nathália chegou. Acho que era perto da hora do almoço. Ela e alguns amigos tinham acabado de sair da faculdade, então faz sentido, devia ser essa hora mesmo. Ela disse que seu maior sonho era trabalhar na revista Capricho. Logo depois, enquanto eu almoçava com a Adriana, a Editora Abril anunciava o fim da Capricho. Pobre Nathália, nunca vai conseguir realizar seu sonho.

Quer dizer, teoricamente ela ainda pode conseguir, já que o título continua em outras plataformas. O que acabou mesmo foi a versão impressa. Se isso vai dar certo ou não, não dá pra saber agora. O fato é que fiquei triste com o fim da Capricho impressa. Conheço muita gente que trabalhou (e ainda trabalha) por lá. O meu primeiro trabalho na Editora Abril foi na redação da Capricho.

Quando eu tinha a idade da Nathália, estava correndo atrás do meu primeiro estágio e fui fazer uma entrevista em uma agência de publicidade que ficava no Brooklin, zona sul de São Paulo. Era uma casa residencial perto da fábrica da Lacta que havia sido convertida em agência. Na recepção, havia uns 7 ou 8 candidatos esperando sua vez. Quando chegou a minha, mostrei meu portifólio magrinho que tinha apenas trabalhos acadêmicos para o entrevistador, que vestia um terno uns dois números maiores do que o adequado.

Ele me perguntou se eu achava que a publicidade passava por um momento bom ou ruim. Eu não tinha ideia do que dizer. Nem sei se eu tinha como saber aquilo aos 18 anos de idade. Pra falar a verdade, eu nem queria. Eu só queria participar daquele mundo que idealizava. Talvez Nathália tenha uma perspectiva profissional parecida com a minha naquela época.

Dia desses eu tive que fazer uma limpeza em casa. Estava precisando de espaço e então resolvi abrir as caixas de livros e revistas que acumulei durante os anos. Fiquei tentando justificar pra mim mesmo porque tenho uma pasta com recortes de jornal com matérias sobre bandas que eu gostava nos anos 1990. Centenas de revistas. 10 exemplares de um mesmo livro. A credencial de um show do Coldplay que eu nunca fui. Pilhas de edições de uma revista de música que eu editei com dois colegas no começo dos anos 2000 – esse talvez seja o caso mais grave: cheguei a contar 30 exemplares de uma mesma edição.

Ser adolescente nos anos 90 significava que você realmente precisava correr atrás de informações. A pesquisa era física. Você precisava sair de casa, comprar o jornal, ligar pra um amigo, ir até a biblioteca. Eu não estou me gabando disso, pelo contrário, estou um pouco embaraçado de lembrar porque parece que eu estou falando com um ar de superioridade, como se eu fosse melhor apenas porque vivi em uma época em que a tecnologia era menos avançada do que hoje. Eu sempre odiei gente que gosta de contar vantagem só porque nasceu antes de mim.

Acho que a Nathália também não sabe muito bem o que está acontecendo no jornalismo. E talvez ela esteja certa em não saber. Eu me formei em Artes Gráficas e tal qual meu gosto musical, havia um certo orgulho das pessoas nesse meio em falar sobre as coisas do passado. Era em tom de deboche que eu ouvia que quem nunca trabalhou com paste-up não saberia fazer uma revista direito. Trabalhei com fotolito, paste-up, catálogo impresso do Image Bank e mais um monte de coisas que estavam com os dias contados. Grande coisa. Talvez fosse melhor que eu nunca tivesse encostado nessas coisas e só me dedicasse ao que estava chegando de novo. Numa época de internet discada, eu nem imaginava o que estava por vir.

Concordei em jogar fora várias edições de revistas em que trabalhei. Eu tinha 3 edições da Playboy com a Fernanda Young na capa (joguei duas fora), 10 edições de um especial do U2 que fiz pra Editora Escala em 2006 (guardei só um), Dezenas e dezenas de edições da Trip. Aqui foi difícil decidir o que jogar fora porque a Trip foi uma das revistas que mais me influenciou. Depois de conhecer a Trip, eu tinha certeza de que queria trabalhar em alguma revista. Olha só, eu até trabalhei lá por um tempo! Foi meio ruim, mas tudo bem. Eu tinha a edição com a primeira matéria com o Sepultura e o novo vocalista (guardei), aquela edição com o buraco de bala (guardei, claro), aquela com o Luciano Huck pelado na capa (lixo) e uma com uma holografia do Ronaldinho Gaúcho (guardei, mas pensando agora, deveria ter ido pro lixo).

A verdade é que eu não tenho defesa. Nunca mais voltei a consultar essas revistas, elas são apenas um amuleto sem utilidade prática. Não são como discos que ao menos podem ser ouvidos (mas não vamos falar sobre meu acúmulo de vinil aqui). Elas me trazem segurança. Essa é a utilidade delas. Eu cresci em uma época em que você precisava ter as referências para quando precisasse delas e ainda tenho algum resquício dessa cultura em mim. Acho que é por isso que o fim de uma revista da qual eu nunca fui leitor consegue mexer comigo.

Daniel

Postado dia 02 de julho de 2015
Comente (0)

Nathália

"Meu sonho é trabalhar na Capricho. Eu quero aparecer!"
18 anos
Viaduto Cidade de Osaka, São Paulo, SP

Postado dia 30 de junho de 2015
Comente (1)