Valmir

"Independente do crime que meu pai tenha cometido, ele ainda é meu pai. Um ótimo pai"
26 anos
Rua XV de Novembro, São Paulo, SP

Postado dia 07 de maio de 2015
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Gustavo

"Eu me importo muito com a opinião dos outros sobre mim. Pro bem ou pro mal."
33 anos
Largo São Francisco, São Paulo, SP

Postado dia 04 de maio de 2015
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Às vezes é difícil

Rua da Quitanda, São Paulo, SP

coracaosite

Desde que dei à luz, nunca mais li notícias que envolvam crimes contra crianças ou casos de mães que perderam seus filhos. Não dou conta. Se começo, por um esforço de romper a barreira, paro pela metade. Corro o risco de passar dias impressionada com o fato, ou acordar minhas filhas durante a madrugada para abraçá-las, na certeza de que está tudo bem. Se você tem filhos, sabe do que estou falando.

Por isso, sempre tive medo de que sentasse diante de nós alguém com um relato de violência infantil ou morte de filhos. Na tarde em que o João Vitor nos contou sobre o abandono pela mãe, quando ele ainda um garotinho menor do que a minha caçula, fiz força para não ficar pensando obsessivamente sobre aquilo, sobre as lágrimas do menino, sobre a dor, sobre a dimensão da tragédia. Naquela noite, foi a cerveja com os amigos cearenses que me salvou de uma noite cheia de pesadelos.

Dias atrás, no meio de uma conversa que seguia trivial, perguntei para Elza o que seus filhos, se é que elas os tinha, achavam de determinada atitude sua. “Eu tive um filho, mas ele morreu”, ela respondeu. Contou então que o garoto faleceu aos 19 anos, vítima de um acidente de carro. Há muitas coisas que fogem ao alcance da minha comprensão, e uma delas é como alguém pode sobreviver a uma situação dessas. Lembrei-me de quando entrevistei a atriz Cissa Guimarães, logo após a morte do filho Rafael, atropelado em um túnel do Rio de Janeiro enquanto andava de skate. Ela se mantinha firme enquanto falava sobre a dor, mas lá pelas tantas o relato começou a ficar tão triste, mas tão insuportavelmente melancólico, que eu fui a mais antiprofissional das criaturas e tive uma pequena crise de choro no meio da entrevista. Pedi desculpas, e ela as aceitou.

Eu ainda pensava sobre isso quando, logo após a conversa com Elza, Dina sentou-se diante de nós. Em menos de cinco minutos de papo ela revelou que também tinha perdido um filho. Também aos 19 anos, igualmente de acidente de carro. Se Elza parecia mais conformada, Dina deixava transparecer a dor de maneira muito evidente. Perguntei se ela ainda conseguia pensar em felicidade. Ela me disse que isso era impossível. Mas, como tem outro filho, precisa tocar a vida.

Das muitas coincidências que enfrentamos na nossa jornada falando com estranhos, essa foi a única que me perturbou. Não sou dada a crenças sobrenaturais, avisos do destino e, para meu azar, nasci sem o gene da fé. Mesmo assim, fiquei perturbadíssima com aquela dupla ocorrência de mães marcadas pela maior das tragédias, especialmente porque, naquele dia, a minha filha mais velha estava em uma viagem escolar pelo interior paulista. Como disse, não acredito em coisas do outro mundo, mas aqueles relatos me deixaram com um nó tamanho na garganta que, mal sentei para almoçar após as entrevistas da manhã, liguei para a minha filha – mas a ligação caiu na caixa postal.

Meu astral foi de mal a pior quando, no começo da tarde, entrevistamos o Renato, que contou sobre a morte do irmão. Só falta ser em um acidente de carro, eu pensei, antes que ele revelasse que fora assassinato. Por sorte, logo depois vimos o Israel, o simpaticíssimo vendedor de plantas. Pensando agora, acho que o fato de o convidarmos para dar entrevista, contrariando o inciso I do nosso regimento interno, foi, na verdade, um pedido de socorro. “Se rirem de mim, não me importo”, disse ele. “O importante é que fiz aquela pessoa dar um sorriso e esquecer dos problemas, nem que fosse por um segundo”, afirmou. Israel, meu caro, obrigada demais.

Adriana

Postado dia 30 de abril de 2015
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Dina

"Ele fazia jornalismo. Se estivesse vivo seria concorrente de vocês"
64 anos
Rua da Quitanda, São Paulo, SP

Postado dia 29 de abril de 2015
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Elza

"Meu marido perdeu o controle do carro e bateu. Meu filho morreu na hora."
45 anos
Rua da Quitanda, São Paulo, SP

Postado dia 28 de abril de 2015
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Alexandre

"Eu nasci pobre, careca, feio, pelado e sem os dentes. Hoje eu tô vestido e com dentes."
47 anos
Rua da Quitanda, São Paulo, SP

Postado dia 23 de abril de 2015
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Correndo atrás

Rua XV de Novembro, São Paulo, SP

corresite

Adriana, vou contar uma coisa que você não sabia: lembra quando conversamos com a Fabiane na Avenida Paulista e ela tocou uma música do Nando Reis no final? Eu pedi a ela que cantasse uma segunda vez, tá lembrada? Pois é, eu fiz isso porque havia esquecido de ligar o microfone quando ela começou a cantar #prontofalei.

Sempre que a conversa sai do padrão que estabelecemos com uma pessoa sentada o tempo todo as coisas podem sair meio erradas, como nesse dia da Fabiane. Isso acontece porque eu e a Adriana acumulamos várias funções enquanto conversamos e filmamos. Somos produtores, cinegrafistas, jornalistas e operadores de áudio, tudo ao mesmo tempo. Então é natural que vez ou outra a gente esqueça de alguma coisa, como ligar o microfone. Acho meio prepotente se classificar como “jornalismo de guerrilha”. Sempre que ouço esse termo penso em alguém que está cobrindo alguma guerra civil no leste europeu. Talvez a essência seja similar, com a vantagem de que não temos que nos preocupar com morteiros.

A nossa conversa com o Israel foi provavelmente a que mais nos tirou dessa zona de conforto. Ele fez malabarismos e cantou, então a gente teve que pensar bem rápido na hora de posicionar a câmera e o microfone. É importante fazer as coisas com um bom padrão técnico mas, ao mesmo tempo não queremos deixar a espontaneidade ir embora com muitos ajustes técnicos – até porque as pessoas estão no meio de alguma outra atividade quando param pra conversar e a gente não pode tomar mais do que os 15 ou 20 minutos que elas nos dão.

Quando ele foi nos mostrar suas habilidades, eu quis deixá-lo microfonado. Coloquei a lapela em sua camisa e escondi o transmissor dentro do bolso de sua jaqueta. Valeu a pena ter feito isso porque ele fez uns de efeitos sonoros que complementaram a performance. Assim que ele terminou as acrobacias, entrou em ação a Adriana Produtora pra pegar as devidas autorizações e passar nosso cartão com o endereço do site pra que ver a filmagem depois. “Eu não tenho Facebook mas as minhas filhas têm”. Aí ficamos conversando um pouco e fomos até convidados a acompanhá-lo em sua jornada de trem diária pra que ele nos mostrasse como carrega todo aquele aparato.

Assim que ele foi embora comentamos sobre a inusitada participação enquanto arrumávamos nossos equipamentos para a próxima entrevista. Uns dois minutos depois me veio uma sensação péssima. Tinha alguma coisa errada e então percebi: O MICROFONE! ESQUECI DE TIRAR DO BOLSO DA JAQUETA DELE! O Daniel Operador de Áudio tinha vacilado em seu trabalho. Segunda-feira no RH.

Saí correndo pelo movimentado centro de São Paulo. Israel tinha uns dois ou três minutos de vantagem naquele labirinto de calçadões e pessoas. Qual chance eu teria de encontrá-lo? Corri como se não houvesse amanhã e logo apareceu o primeiro problema, na forma de uma esquina. Ele seguiu reto ou virou à direita? Pensei naqueles filmes de detetive em que, no caso de um desaparecimento, eles se questionam: “Se você fosse o Israel, pra onde você iria?”. Se eu fosse o Israel eu teria voltado pra devolver o microfone, então obrigado por nada, filmes de detetive.

Resolvi correr em linha reta por puro acaso e aí me dei conta de que eu tinha duas coisas a meu favor: ele não andava muito rápido por conta de toda parafernália e eu tinha uma vantagem visual com todas aquelas plantas penduradas.Corri mais um pouquinho, e quase chegando à Praça da Sé avistei-o. Gritei, ele parou e consegui pegar o microfone de volta. Ufa! Senti um grande alívio e senti também que finalmente fiz valer a matéria que nosso amigo Paulo Vieira fez sobre o Fale com Estranhos em seu site Jornalistas que Correm.

Enquanto eu voltava para a nossa base, um cara que eu nunca tinha visto na vida fala para mim: “Esqueceu o microfone, hein?” Como é que ele sabia? Na hora nem dei muita importância porque estava muito feliz de ter o aparelho de volta mas, depois fiquei pensando em como é que esse cara sabia que eu tinha esquecido o microfone.

Adriana, precisamos mandar nossos funcionários de áudio e produção para um treinamento de reciclagem o mais rápido possível

Daniel

Postado dia 20 de abril de 2015
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O jornalismo e a vergonha

vergonha

Mostrei para um amigo jornalista o vídeo do Israel, em que eu e o Daniel aparecemos comentando os bastidores do projeto.

– Não gostei daquela parte em que você diz que tem vergonha de chamar as pessoas para darem entrevista – ele disse.
– Mas é a pura verdade, tenho mesmo. Não é que eu seja da Globo e as pessoas já saibam do que se trata. Tem toda uma história de explicar que é um site, um canal no Youtube, blablablá.
– Uma jornalista com vergonha de chamar alguém para dar entrevista? Me soa estranho – ele finalizou.

Fiquei pensando sobre aquilo. Será que eu deveria pedir para o Daniel fazer uma nova edição, sem aquele trecho? Será que o mais adequado seria escamotear esta minha fraqueza e sair por aí dizendo que “imagina, jornalista não pode ser tímido, jornalista é um tipo desinibido e cara-de-pau por natureza”? Será que depois disso nunca mais vão me chamar para fazer frilas de entrevista?

Depois de pensar por alguns minutos decidi que ia deixar o vídeo exatamente como estava. Pelo seguinte motivo: no Fale com Estranhos, a espontaneidade e a verdade são dois itens muito valiosos. Verdade, ressalte-se, que nada tem a ver com a autenticidade dos fatos, mas sim com a sinceridade como eles são contados (escrevi sobre isso meses atrás, aqui). Nesse sentido, assumir uma fraqueza como a vergonha, ainda que ela soe contraditária com a profissão que escolhi, parece-me muito coerente com o projeto. Se nossos entrevistados expõem suas dores, inadequações e angústias com tanto despudor, por que justo eu, uma das idealizadoras da história, vou bancar a durona?

Discordo também da visão segundo a qual jornalistas têm que ser Mulheres Maravilhas (ou Super Homens) cheios de si, com uma segurança por vezes cínica, que não se constrangem com nada. Acho que este modelo ruiu junto com o lide e com o mito, tão confortável para os empresários de comunicação, de que jornalistas são imparciais. O cenário ainda é nebuloso, mas tendo a acreditar que, nesta nova era, jornalistas devem ser mais humanos e acessíveis. Não tenho mais paciência para aquele tipinho de terno e gravata com um ar meio robotizado, com sua farta cultura de telepronter e um eterno olhar de superioridade. Imagino que boa parte do público também não.

E já que chegamos até aqui, reconheço: morro de vergonha de muitas, muitas coisas. Quando comecei a trabalhar na Playboy, queria morrer quando as reuniões de pauta versavam sobre grandes lábios da estrela de capa. Talvez achassem que eu sofria de algum problema circulatório, porque meu rosto vivia vermelho, prestes a explodir. Também tinha ímpetos suicidas quando meus editores na Veja (muitos, muitos anos atrás) me pediam para ligar para um economista de 80 anos às 2 da matina para checar uma informação – uma vez, um deles, acordado na madrugada de uma sexta-feira para falar algo sobre o PIB, me deu um esculacho tão grande que até hoje me dói os ouvidos.

A despeito de todas as dificuldades, acredito piamente que timidez e jornalismo não são incompatíveis. Assim como timidez e, por exemplo, artes cênicas. Nunca me esqueci de uma frase que ouvi, em 2004, do ator José Wilker, quando o entrevistei para a Playboy. Ao comentar o aparente sucesso de algumas celebridades, ele disse: “Na TV, confunde-se desinibição com talento”. Acho que no jornalismo também.

Adriana

Postado dia 18 de abril de 2015
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