Vitória

"Foi muito interessante a minha vida. Foi e ainda é!"
67 anos
Estação da Luz, São Paulo, SP

De vez em quando, ficamos um bom tempo esperando para que alguém sente e converse com a gente. Essa espera é sempre imprevísivel. Já aconteceu de nos abordarem enquanto ainda montávamos o equipamento, mas também já ficamos entediados por quase uma hora até que alguém aparecesse.

Estávamos num desses períodos de seca quando Vitória chegou e sentou-se no banquinho do entrevistado. Só que ela não percebeu que estávamos ali. Ela achou que era apenas um banquinho público em que poderia relaxar por alguns minutos.

Explicamos que ela poderia sim relaxar um pouco, mas o pagamento seria conversar conosco.

Daniel

Postado dia 12 de janeiro de 2015
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Klaus

Klaus é um homem de sorriso fácil, mas se mantém vigilante contra a depressão - doença que vitimou sua mãe, morta dois anos atrás em circunstância tão triste quanto prosaica
38 anos
Estação da Luz, São Paulo, SP

Postado dia 23 de dezembro de 2014
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Luciano

"Gosto de fazer as unhas. Fiz as do pé ontem"
51 anos
Estação da Luz, São Paulo, SP

Postado dia 05 de dezembro de 2014
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Camilla

"Eu desejo que isso não aconteça com ninguém"
19 anos
Estação da Luz, São Paulo, SP

Uma história triste, mas bonita

Camilla, 19 anos, foi a primeira pessoa a se aproximar da câmera na manhã de 25 de novembro, dia em que gravamos na Estação da Luz, na região central de São Paulo. Quis saber o que era aquela esquisitice. “Somos jornalistas e temos um projeto de entrevistas com anônimos”, explicamos, como de praxe. “Ah! Eu sou estudante de jornalismo”, sorriu, enquanto sentava diante da câmera. Foi um sorriso ligeiro. Quando ligamos os equipamentos, ela começou a chorar.

O depoimento de Camilla foi um dos mais tristes que ouvi neste um mês de Fale com Estranhos. Ela chorava de um modo contido, sem escândalo. Algumas perguntas faziam com que as lágrimas lhe invadissem os olhos e saltassem, grossas, uma após outra, e escorressem pelo pescoço e colo. A história de Camilla é um clássico de uma tragédia das quais são vítimas inúmeras crianças mundo afora. A forma como lidou com a dor também é corriqueira – só veio a dar-se conta do que de fato acontecera anos depois, na adolescência.

Quando desligamos a câmera, pedi à Camilla que assinasse a autorização de uso de imagem. Ela preencheu todos os dados e pensou um pouco antes de assinar o papel. “Será que você pode colocar somente a voz?”, perguntou. Eu expliquei que não. Depois de tirar o microfone da blusa da moça, o Daniel optou por afastar-se um pouco. “Achei que era uma conversa entre duas mulheres”, ele me disse, depois. Tentei, do meu celular, mostrar como eram os vídeos, mas o 4G da minha operadora estava uma porcaria e não consegui. “Vou assinar, mas não quero que apareça o meu rosto”, ela disse. Pegou um cartão, despediu-se e foi embora.

Abre parênteses: nunca sei como me despedir das pessoas que nos dão entrevistas. Não sei se me levanto e dou um beijinho, se ofereço a mão, se aceno, enfim. Ainda não sei como agir. No caso da Camilla, ocorreu-me por instantes dar um abraço nela e dizer algo como “vai dar tudo certo”, mas fiquei com medo de parecer piegas. Senti vergonha e permaneci sentada. Dei um “tchau” seco e me culpei um pouco por isso. Fecha parênteses.

Três dias depois, recebi um email.

“Boa tarde, Adriana. Sou a Camilla, você me entrevistou esta semana na Estação da Luz e fiquei de dar um retorno quanto à exibição do conteúdo. Se quiser, pode publicar, eu não me importo”. No mesmo e-mail, ela pedia para que excluíssemos um determinado trecho da conversa. Disse que havia tomado decisões importantes sobre sua vida nos últimos dias e confessou seu desejo de publicar alguns textos em livro – ela mantém um tumblr muito sensível e poético.

Esta é a história de um vídeo. É também a história de uma menina que confiou em dois estranhos que encontrou na rua, mesmo já tendo sido traída, ainda criança e em casa, por alguém que só deveria protegê-la.

Valeu, Camilla. E o abraço vai por aqui.

Adriana

Postado dia 01 de dezembro de 2014
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Sheyla

"O pessoal gosta de me ouvir cantando Paula Fernandes"
24 anos
Estação da Luz, São Paulo, SP

Postado dia 30 de novembro de 2014
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Lázaro

"Eu vim aqui nesta estação, em 1966, carregar malas. Hoje, essa profissão não existe mais."
70 anos
Estação da Luz, São Paulo, SP

Lázaro chegou para falar com a gente por trás da câmera para ter certeza de que não apareceria na filmagem. Perguntou se o que estávamos gravando caberia num pendrive, emendou dizendo que já tinha viajado para o Oriente Médio e queria falar sobre isso.

Começamos a conversar sobre diversos assuntos e esquecemos de perguntar justamente sobre o Oriente, motivo que o havia feito, afinal, sentar diante da câmera.

Ele permaneceu no banquinho quando desligamos o equipamento. Olhou para nós e disse, decepcionado: “Mas, e a viagem? Vocês não querem saber?”.

Ligamos a câmera novamente, ajustamos o foco, testamos o som e pedimos, então, que narrasse a história. Ele contou que foi uma das experiências mais felizes de sua vida.

Daniel

Postado dia 28 de novembro de 2014
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Marinaldo

"Sou uma pessoa que explodo e foi isso que me levou à prisão. Tô respondendo pelo 121. Homicídio, né?"
42 anos
Estação da Luz, São Paulo, SP

Não vi Marinaldo chegando pra conversar com a gente. Eu estava fazendo alguma outra coisa, mexendo na câmera ou algo assim. Ele chegou do lado da Adriana, falou com ela e quando percebi ele já estava sentado, pronto pra conversar.

Fiz o que sempre faço: coloquei o microfone nele, pus os meus fones de ouvido e pedi pra ele dizer o nome apenas pra testar o áudio. Eu nunca tinha conversado com uma pessoa que responde por homicídio. Não que eu saiba, ao menos. Naquele momento eu ainda não sabia disso, mas essa foi uma das primeiras coisas que ele falou.

Uma das coisas que eu tenho reparado é que, não importa como a conversa começa, a pessoa quer falar logo sobre sua maior questão, seja ela trágica ou alegre. Tudo de mais impactante que nos foi dito até agora aconteceu nos três primeiros minutos.

Marinaldo começou a se descrever e logo falou que havia “desferido um golpe” em uma pessoa. Não ficou claro se essa pessoa morreu ou não, mas isso não importa. Ele também não quis falar de primeira que usou uma faca pra desferir o golpe.

Quando pedimos pra que ele explicasse o motivo que o levou a fazer isso, a descrição não foi muito precisa, ao contrário da receita de risoto de camarão com aspargos que ele descreveu detalhadamente. Marinaldo é cozinheiro e diz que sua escola é a contemporânea.

Mesmo trabalhando em São Paulo – terra em que tudo ganha uma versão gourmet – ele fez uma descrição brilhantemente tosca de um troço que agora é moda chamar de “storytelling”. Ele não usou esse termo, é claro. Mas deixou claro que “não é só chegar e pedir um filé mignon ao molho madeira e comer de qualquer jeito, é muito importante saber a origem da comida.”

Mas o que eu mais gostei mesmo foi no final quando ele descreve a receita. A imagem começa escura – uma nuvem passou na frente do sol, alguém fechou a porta atrás de nós, não sei – mas conforme ele vai contando a história, o sol volta a bater gradualmente em seu rosto e ele finaliza, com o rosto brilhando, a sua melhor receita.

Daniel

Agradecimentos: CPTM

Postado dia 26 de novembro de 2014
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