Ocion e João Victor

34 e 14 anos
XI Bienal do Livro do Ceará, Fortaleza, CE

Um menino triste e seu pai herói

Tínhamos decidido recolher os equipamentos quando Ocion pediu para falar com a gente. Estávamos na Bienal do Livro do Ceará, em Fortaleza, e aquela tarde já havia sido muito produtiva – entrevistamos um sujeito que nos matou de rir, Gerardo, e uma menina encantadora, a Letícia, além de outras figuras que vocês ainda vão conhecer. A noite já avançava, estávamos suados, cansados, famintos e nutríamos o doce sentimento do dever cumprido, mas resolvemos fazer mais uma entrevista. E, na sequência, mais uma. Ainda bem, porque vivemos, ali, uma das experiências mais arrebatadoras do Fale com Estranhos.

À primeira e corriqueira pergunta, “Quem é você”, Ocion citou os dois filhos, João Victor e Vitória. “São os dois maiores troféus da minha vida”, disse. Presto bastante atenção a essa resposta. Acho que ela diz muito a respeito da escala de valores do entrevistado. Quem, de cara, revela a profissão mostra o quanto o trabalho é importante na sua vida. Já quem fala dos filhos não deixa dúvidas de que eles ocupam o centro da sua existência. Isso é puro achismo meu mas, no caso de Ocion, tenho certeza de que a minha tese se comprova.

Ocion é policial militar em Fortaleza. Talvez seja tido, por alguns de seus pares, como um cara que gosta “desse pessoal dos direitos humanos”, porque algumas vezes se pergunta os motivos que levam um bandido a ser um bandido. Demonstra arrependimentos, como na noite em que enxotou um criminoso ensanguentado que cambaleava numa rua próxima à sua casa. Reparem no olhar de Ocion quando ele lamenta não ter oferecido um copo de água ou uma camisa ao rapaz. Se não mencionasse a “briga interna” que o “bem e o mal” travam dentro dele, aquele olhar seria suficiente para dar o recado.

Nas batalhas mais práticas que trava no dia-a-dia da profissão – já viu um tiro passar a poucos centímetros de sua cabeça – Ocion lida com o terror de faltar para os filhos. Achei isso tocante. Mas só compreendi a real dimensão do medo quando ouvimos João Victor, seu filho.

“Sou um menino de família humilde”, ele se definiu. “Não tive muita convivência com a minha mãe”, continuou. Em menos de um minuto, começou a chorar. Passou a entrevista inteira lutando contra as lágrimas, que insistiam em interromper o fluxo da narrativa.

Quando era pequeno, João saiu de bicicleta com o pai e, na volta, encontrou a casa vazia. Foi abandonado pela mãe, que se mudou para Goiânia. João não fala abertamente sobre a dor do abandono, mas ela é clara. Mais tarde, o pai se casou novamente. Sobre a madrasta, ele diz: “Ela não desistiu de mim”.

O fim do vídeo é, pra mim, o momento mais comovente. João conta uma experiência inversa a que teve na volta para casa com o pai, quando encontrou tudo vazio. Na história mais recente, o final é feliz. “Eu me alegrei demais”, ele ri, finalmente.

O que mais nos impressionou, além do relato forte de pai e filho, foi a cumplicidade entre eles. João não ouviu a entrevista de Ocion – e, na vez do menino, o pai preferiu se afastar para longe. Ao fim, os dois saíram andando abraçados pelo saguão do Centro de Convenções, até alcançar a porta que levava à rua e fugir do alcance da nossa vista. Justamente por causa dessa cumplicidade, o Daniel optou por fazer uma edição diferente a que vocês estão acostumados. Esta é a primeira vez em que duas pessoas aparecem no mesmo vídeo.

Não pude deixar de pensar em como João Victor precisa do pai. Precisa muitíssimo. E como é cruel que Ocion exerça uma das profissões mais arriscadas do país.

No dia seguinte à entrevista, João Victor completou 14 anos. Tomara que ele tenha tido um aniversário bacana como na vez em que foi comprar sanduíches na esquina de casa.

Adriana

Postado dia 16 de janeiro de 2015
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Raimundo

"Mataram o Tancredo Neves. Ele foi assassinado, envenenado."
49 anos
Avenida Beira Mar, Fortaleza, CE

patinho

Pequena nota sobre essa conversa:
Quando Raimundo disse que vendia Totolec na praia, eu pensei que isso fosse um daqueles brinquedinhos de madeira com um cabo pra empurrar, tipo um patinho ou um cachorro que uns sujeitos vendiam em porta de restaurante quando eu era criança. Não é que eu pensei, eu tive certeza.
Acho que nunca ninguém deu um chute tão errado sobre algo como eu fiz.

Daniel

Postado dia 14 de janeiro de 2015
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Gerardo

"Idade cronológica: 63. Idade mental: 25"
63 anos
XI Bienal do Livro do Ceará, Fortaleza, CE

Gerardo nem sabe, mas ficamos dias e dias rindo do causo que ele nos contou. A Adriana perguntou se ele tinha alguma experiência muito engraçada para compartilhar conosco e ele foi incisivo: “Tenho!”, disse imediatamente, sem nem piscar.

Com toda essa certeza a coisa só pode ser boa, pensei. O ônibus espacial Challenger das minhas expectativas foi lançado para o espaço nesse momento.

A história era tão sem graça, mas tão sem graça que tivemos um ataque de riso na hora e precisamos interromper a conversa por alguns minutos. Tal qual o Challenger original, o meu explodiu segundos após o lançamento.

Mas até hoje, quando penso em carne de porco, penso no Gerardo.

Daniel

Postado dia 13 de janeiro de 2015
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Tiago

"Com um erro em qualquer outra profissão, você pode ser demitido. Na minha, se eu errar, posso causar um acidente e 300 pessoas morrerem"
25 anos
Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, Fortaleza, CE

Postado dia 08 de janeiro de 2015
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Brenda

"Disseram que minha mãe me deu mamadeira quente, tentou me matar com tesoura, porque ela tinha ciúmes do meu pai"
19 anos
Praça José de Alencar, Fortaleza, CE

Postado dia 06 de janeiro de 2015
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Mayron

"Meu professor olhou pra mim e disse: 'Meu filho, não caga a gente não!'"
22 anos
Praça do Ferreira, Fortaleza, CE

Eventualmente, algumas coincidências acontecem quando conversamos com muita gente no mesmo dia. São pequenas coisas, como o dia em que duas pessoas citaram o líder religioso Osho, ou então quando, em um intervalo de poucas horas, encontramos dois estranhos que são de uma mesma cidade do interior. Coisas desse tipo.

No caso do Mayron, essa coincidência foi muito mais engraçada do que essas que eu citei.

A gente estava na Praça do Ferreira, em Fortaleza, tínhamos acabado de conversar com a Ninivia, e ainda estávamos rindo daquela história sensacional que ela contou envolvendo… hum, problemas intestinais (se você ainda não viu, clique aqui, você não vai se arrepender) e então Mayron chegou.

O pobre rapaz passou por um sufoco muito parecido com o dela. Mas não adianta eu ficar aqui escrevendo sobre isso, é melhor que você veja ele mesmo contando. Foi uma das histórias mais engraçadas que já ouvimos até agora. Aliás, foi tão engraçado que ele mesmo não conseguiu segurar a risada.

Pela segunda vez naquele dia, nós rimos demais.

Daniel

Postado dia 05 de janeiro de 2015
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Ana Patrícia

"De repente, ele vomitou na mina perna. Na hora, tive vontade de dar uma porrada nele."
36 anos
Praça do Ferreira, Fortaleza, CE

Postado dia 26 de dezembro de 2014
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Emerson

"Antes eu fazia poesia para beber e comprar CD's. Hoje eu faço pra pagar o aluguel e pensão para dois filhos"
29 anos
Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, Fortaleza, CE

Postado dia 22 de dezembro de 2014
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