Sol inclemente e pombos insolentes

Liberdade, São Paulo, SP

mylena

O Daniel me mandou um WhatsApp pouco depois das 10h: “Por mim, podemos ir gravar agora”.

O combinado era que fôssemos lá pelas 16h, quando o sol tórrido do verão paulistano já tivesse começado a dar sinais de arrefecimento, mas a previsão do tempo do celular indicava que uma tempestade estava por vir no fim da tarde, então refizemos o nosso planejamento.

Ao meio-dia, depois de enfrentar um trânsito surreal entre a Pompéia – onde fica o nosso estúdio – e a Liberdade, lá estávamos nós, placa amarela a tiracolo, a poucos metros da saída principal do metrô. Conseguimos uma boa sombra. Na terceira entrevista, por algo que minha ignorância só permite definir como um mistério da natureza, ela foi embora de repente, dando lugar a um clarão criminoso de 35ºC – era o que informava o termômetro.

Colocamos os bancos e a placa de volta na mala, carregamos a câmera de qualquer jeito e saímos em busca de uma nova sombra. Conseguimos uma que parecia quase poética, numa ponta da mesma praça, embaixo de uma árvore.
Quando fazíamos a nossa quarta entrevista, vi uma gosma marrom-esverdeada cair em um papel que eu mantinha no colo. O papel era a autorização de uso de imagem da Mylena, a moça com quem conversávamos (e cuja imagem ilustra este post), e a gosma, cocô de pombo. Se pombos já não são exatamente limpos, o que dizer de seus excrementos? Mas relevei. Hahahaha, que coisa cafona é o nojinho, pensei.

Lá pelas tantas, senti algo úmido no braço esquerdo. Um molhadinho marrom-esverdeado, que avançou sobre a minha bolsa e um pedaço do vestido. E ainda nem tínhamos começado a quinta entrevista.
Lavei-me com o resto de água mineral que sobrara na minha última garrafa. Cinco minutos depois, vi o Daniel esboçar um pequeno pulo para trás – era uma gosminha que esparramava em sua mão, justamente no momento em que ele ajustava alguma coisa no gravador. Uma gosminha nada, praticamente um pote de geléia de mocotó.
No termômetro, a temperatura havia subido para 37ºC.

Nessas condições, suados e… suados e marrom-esverdeados, ainda conversamos com o Diego, torcendo para que nenhum pombo tivesse vontade de ir ao banheiro sobre o nosso entrevistado. Por sorte, ele saiu ileso.
Tentamos um novo lugar à sombra, longe das árvores e dos pombos, mas os poucos espaços fresquinhos que existiam já haviam sido tomados pelos amigos que vendiam leques ou tocavam gaita.
Rendidos, tomamos o caminho de volta para o escritório. E o pior de tudo é que a previsão do celular estava errada. Às 16h, víamos pela janela do carro um céu de brigadeiro.

Adriana

P.S. Este post é dedicado a Ninívia e Mayron.

Postado dia 20 de janeiro de 2015
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O primeiro teste

Fortaleza de São José de Macapá, Macapá, AP

Esse vídeo foi o primeiro teste que fizemos para o Fale com Estranhos. Levou um tempinho para que o projeto fosse formatado do jeito que é hoje. Dá pra perceber que o enquadramento é bem diferente e fizemos mais de uma tomada.

Sempre que viajamos a trabalho, ficamos reparando em alguns personagens que não estão na nossa pauta, mas que são igualmente fantásticos e, vez ou outra, acabam sendo até mais interessantes do que aquela pessoa com quem temos de conversar.

Em 2014, passamos 4 meses viajando por 10 estados brasileiros, para fazer uma série de documentários para uma revista feminina sobre mulheres cujos trabalhos tiveram algum tipo de destaque em suas áreas. Foi aí que conhecemos a Maria Luiza.

Ela é parteira no estado do Amapá. Seu trabalho é viajar pelas comunidades ribeirinhas ensinando as mulheres a fazerem o parto natural. É que, quando a hora chegar, as famílias vão ter que fazer isso por conta própria já que muitas vezes a maternidade mais próxima está há dias de viagem de barco, então esse conhecimento é fundamental. Ela passa meses fora de casa atravessando rios em busca de famílias para ensinar.

Assim que encerramos a pauta, ela nos convidou pra almoçar. Sentamos num restaurante muito simples à beira do Rio Amazonas e ela começou a nos contar histórias sobre sua vida e fomos ficando cada vez mais interessados. Foi difícil se concentrar na comida. Terminamos o almoço rapidinho e pedimos pra filmar uma conversa com ela. Nada pautado – a gente já tinha o material que precisava para a revista, agora só queríamos registrar as histórias dela.

Fomos até a Fortaleza de São José de Macapá e ligamos a câmera. Ela falou sobre o dia em que, junto com a mãe, matou um jacaré. Como se isso não bastasse, ela disse que quando ia de avião para alguma comunidade muito distante, o único trabalho do piloto era decolar e pousar o avião. O resto da viagem era pilotada por ela.

Quando ela contou sobre o jacaré eu lembre que, às vezes, quando estou no supermercado, fico em dúvida se pego um mamão inteiro ou já picado e descascado. Maria Luiza mata jacarés para o jantar.

Daniel

Postado dia 15 de janeiro de 2015
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Pra que isso?

POST

Uma das perguntas mais recorrentes sobre o Fale com Estranhos é por que o fazemos. É comum que, em conversas entusiasmadas com amigos, lá pelas tantas alguém venha com a já clássica intervenção: “OK, mas… Qual é o objetivo de vocês?”.

Geralmente, antes que nos aventuremos a ensaiar alguma resposta, vêm as suposições: “É para tentar emplacar na TV?”. “Vai virar um longa?”. “É pra fazer um livro?”.

Acho que essas dúvidas têm muito a ver com uma certa incompreensão sobre o tempo em que vivemos. Mais especificamente, sobre o destino do material que produzimos – nós, essa grande massa que se denomina produtora de conteúdo e, em outros tempos, se apresentava como jornalista, designer, publicitário, videomaker. Eu, que sou do tempo em que havia trincheiras entre texto e arte, fotógrafos e repórteres, acho esse balaio de gatos excitante e auspicioso.

O Fale com Estranhos é justamente o que parece ser: um projeto de entrevistas em vídeos que alimentam um canal no Youtube e um site, além de serem compartilhados no Facebook. É para a TV? Bem, pode ser, considerando que é possível conectar sua televisão na internet e acessar o Youtube de lá.

Dia desses, o Fábio Yabu, escritor e roteirista, escreveu que a filha dele, de 4 anos, mal sabe o que são Globo, SBT e Discovery – costuma ver seus desenhos preferidos no Youtube e no Netflix. Não ocorre à menina, imagino, que todos aqueles desenhos estejam ali, aprisionados e quase envergonhados, ansiosos pelo dia em que serão descobertos por uma emissora de TV. Minhas filhas de 10 e 5 anos igualmente não sabem em que canal fica o Disney Channel na grade da Net – mas em um e outro deslizar de dedos se conectam à internet para ver Hora de Aventura, Pokémon ou aprender como se faz uma trança embutida e uma pulseira de elásticos.

Sim, o Fale com Estranhos pode render um livro, um filme, uma viagem ao Japão, um stencil, uma banda de heavy metal ou forró, qualquer coisa. Pode, inclusive, virar um programa de TV, por que não? Pode tudo, e consideramos firmemente algumas dessas possibilidades. Mas, por hora, ele é o que é: um canal de vídeos no Youtube e um site. Acreditar na necessidade de legitimação offline é não perceber como a nossa forma de consumir informação, cultura e entretenimento mudou radicalmente nos últimos anos – e como muda a cada segundo.

Lembro que, tempos atrás, quando eu trabalhava em revistas, usualmente ouvia das fontes que entrevistava: mas é pro papel ou pro site? A resposta que queriam escutar era que a matéria estaria impressa, nas bancas, e muitas vezes os assessores de imprensa nem mandavam fotos de divulgação se soubessem que a reportagem era para a internet. Hoje, em tempos de compartilhamento de notícias nas redes sociais, um comportamento desses soaria no mínimo bizarro.

Tão bizarra quanto a incompreensão de um trabalho que tenha na rede o seu destino e campo de atuação. Para meu consolo, convivo diariamente com crianças, estas sim antenadíssimas. Semanas atrás, uma delas, amiga da minha filha, me perguntou o que eu fazia. “Sou jornalista”, respondi. Ela não pareceu entender. Então fiz outra tentativa. “Tenho um canal no Youtube”. A garotinha de 9 anos mal conseguiu se conter: “Juuuuuuuuuura?”.

Adriana

Postado dia 13 de janeiro de 2015
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Nem sempre deus ajuda quem cedo madruga

Mucuripe, Fortaleza, CE

mucuripe

Chegamos ao Mucuripe às 5:30
Amanheceu
Nenhum pescador olhou para nós
Choveu

O despertador tocou às 4:45 e na hora pensei: “Isso vai valer muito a pena!” Essa é a atitude que se deve ter quando precisamos acordar numa hora dessas, certo? Nossa ideia era ir até Mucuripe, praia onde os pescadores chegam para vender seus peixes após uma madrugada no mar e fazer o Fale com Estranhos por lá.

Chegamos e montamos nosso equipamento na areia – o que já é uma péssima ideia – e esperamos alguém notar a placa e sentar pra conversar.

Recepção fria nos primeiros minutos. Digo fria pra não dizer que fomos completamente ignorados pelos jangadeiros. Acontece que, a essa hora, o mercado do peixe está no auge, todo mundo quer vender e não sobra tempo pra mais nada.

Mas, tudo bem. Às vezes demora mesmo pra começarem a falar conosco.

Quando as primeiras gotas de chuva começaram a cair bem de leve, a Adriana me perguntou se eu estava sentindo e eu disse que sim, mas que negava pra mim mesmo a existência delas.

Aí então a chuva começou a cair MUITO FORTE. Fiquei meio em pânico pensando que perderíamos todo o equipamento, mas demos um jeito de enfiar tudo na mochila e correr para um abrigo. Acontece que a gente estava no meio da praia, bem longe de qualquer tipo de abrigo e a montagem dos nossos equipamentos é sempre feita por partes, não dá pra desmontar tudo de uma vez, então enquanto eu corria na areia (um excelente terreno pra se correr, especialmente quando molhado) tentando salvar nossos equipamentos eletrônicos, o tripé ficava lá, tomando muita chuva. Nem sempre Deus ajuda quem cedo madruga.

De volta ao hotel, secamos todo o equipamento e voltamos, só que não para Mucuripe e sim para o calçadão da Avenida Beira Mar. Depois que o pior passou, demos risada e pensamos no poeminha que abre o texto.

Chegamos no Calçadão. Choveu de novo. Corri para um orelhão, mas fui expulso de lá por duas abelhas que também buscavam abrigo.

Daniel

Postado dia 13 de dezembro de 2014
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A menina que viu o namorado morrer

Marina

Só há uma coisa mais frustante do que o entrevistado que conta a história mais mirabolante do planeta e, no final, resolve não assinar a autorização de uso de imagem. É o entrevistado que conta a história mais mirabolante do planeta, assina a autorização de uso de imagem e, dias depois, nos manda um e-mail pedindo para que o vídeo não seja postado. Foi isso o que aconteceu com a Marina – cujo nome verdadeiro, claro, não é Marina.

Marina foi uma de nossas entrevistadas do Viaduto do Chá, em São Paulo. Ela tem 21 anos e faz faculdade de Nutrição. Estava passeando pelo centro da cidade, sem rumo, e, naquela tarde, tinha decidido fazer duas loucuras. A primeira delas foi sambar ao som do batuque de um grupo de músicos de rua. A segunda, conversar com dois estranhos, diante de uma câmera.

“Eu sou tímida. Extrovertida, às vezes. Dependendo da ocasião, engraçada”, definiu-se, ao primeiro contato. Contou que tem três irmãos mais velhos, pais controladores e, supõe, uma legião de garotos apaixonados por ela – nada surpreendente, porque Marina é uma gracinha. “Sou muito carinhosa e, às vezes, eles entendem do jeito errado”, desculpou-se.

Nas melhores entrevistas para o Estranhos, há um momento exato em que o personagem começa a contar uma história que, sabemos, é A HISTÓRIA. Isso aconteceu, por exemplo, quando Marinaldo disse que desferiu um golpe de faca contra um maloqueiro, Castor falou sobre o pai racista e Camilla revelou ter sido vítima de pedofilia. Com Marina, foi quando ela narrou a situação mais triste de sua vida. “O dia em que meu namorado morreu”.

Ela conta: “Nós namorávamos havia um ano e cinco meses. As nossas famílias não sabiam do relacionamento. Um dia, ele foi até a minha casa. Conversamos e, uma hora, começamos a discutir, na calçada. Eu queria acabar com aquele segredo todo, queria que ele conhecesse a minha família. Mas ele resistia, dizia que precisava de mais tempo. Como insisti, ele ficou bravo, entrou no carro e saiu em disparada. No primeiro cruzamento, avançou o sinal vermelho. Foi atingido por um ônibus, de frente. Corri até lá. Ele estava com os olhos abertos. Chamei pelo nome, mas ele não respondeu. Dois minutos depois, faleceu. Eu estava do lado, vi tudo”.

A tragédia, disse Marina, aconteceu em 2012. Até hoje, as famílias não sabem dos fatos que antecederam o acidente. “Tenho medo de que me culpem pela morte”. Fiquei impressionada pela maneira como ela contava a história. Parecia anestesiada. “Lidei com o trauma sozinha. Nunca contei para ninguém, nunca fiz terapia. Hoje não penso tanto nisso. Quero acreditar que a morte teve um motivo, que ele está em um lugar melhor”, desabafou.

O Daniel já tinha começado a editar o material quando recebemos um e-mail da moça:

“Naquela tarde, pensei muito sobre o que falei. Eu não devia ter contado sobre o acidente. Por favor, não postem o vídeo. Perguntas virão à tona e não estou preparada para respondê-las”.

Foi uma pena, porque a história era realmente impressionante. Que Marina supere o trauma, liberte-se da culpa e realize os seus maiores desejos, que revelou ao fim da nossa conversa: “Ter um futuro brilhante como nutricionista, casar e ter dois filhos”.

Adriana

Postado dia 07 de dezembro de 2014
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