Quinze mil, Haddad?

Praça das Artes, São Paulo, SP

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Na semana passada, no dia em que caiu uma chuva fenomenal em São Paulo, eu e o Daniel ficamos ilhados por cerca de duas horas dentro de um lugar maravilhoso no Centro de São Paulo, a Praça das Artes A ideia era filmar na Vale do Anhangabaú. Mas, com aquele temporal, não havia chances. “Então vamos fazer o Fale aqui! Está cheio de gente que veio ver a exposição, pode ser uma boa”, nos empolgamos.

Procurei o assessor de imprensa para pedir autorização. Apresentei o projeto, ele pareceu gostar. Se não pudesse ser naquele dia, que fosse em qualquer outro – se aquela tarde chuvosa rendesse uma locação para o futuro, já estaríamos no lucro. Mas, antes que eu me animasse, o jovem disse que, para filmar ali, o custo seria de 25 mil reais. Quase desmaiei.

– Vinte e cinco mil? Somos independentes, fazemos este projeto sem ganhar nada, não temos este dinheiro.
– Para projetos independentes este é o valor cobrado pela Prefeitura. Para emissoras de TV, que divulgam o espaço, o custo é zero. De todo modo, mande um e-mail, quem sabe você não consegue uma autorização.

Isso só pode ser um engano, eu pensei. Esta é uma gestão moderna, que apoia a arte urbana – de imediato me lembrei dos grafites que embelezaram os Arcos do Jânio, a despeito de um ou outro protesto mais conservador. Escrevi o e-mail ali mesmo, do celular. Dias depois, veio a resposta:

“Oi Adriana, boa tarde.Venho por meio deste e-mail informar-lhe que a autorização não foi possível, o pagamento da diária de uso do espaço seria primordial para tal processo.”

Ele me informou ainda que a diária não era de 25 mil reais, como ele havia dito ali, no calor do não, mas de 15 mil reais, por 8 horas de uso. Alguns dias antes, o Daniel tinha tentado uma autorização com a Secretaria do Verde e Meio Ambiente para filmar no Parque da Luz e um funcionário também falou sobre a diária. Mas não levamos muito a sério, achamos que havia sido um engano – até porque, no começo deste projeto, filmamos no Ibirapuera e no Parque Buenos Aires sem que nos cobrassem nada por isso.

Se alguém conseguir compreender a lógica disso, por favor, nos diga, porque estamos bem confusos.

Postado dia 02 de março de 2015
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Papo sadio

Copacabana, Rio de Janeiro, RJ

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Quando Natan se aproximou de nós, pensei que teríamos problemas. Ele tinha um olhar cheio de raiva e, o pior de tudo: estava a um passo de entrar no quadro enquanto filmávamos a conversa com o Thiago.

Tem um monte de gente que atrapalha as filmagens. Naquele mesmo dia, um vendedor de batatas chips que era a cara do Dennis Rodman parou do meu lado enquanto conversávamos com o Reinaldo e começou a oferecer o produto como se nada estivesse acontecendo. “Compra uma ruffle pra dar uma força aí, irmão”. Apenas acenei negativamente com a cabeça e esperei pelo melhor.

Eu achei que o Natan fosse fazer algo parecido, então fiquei prestando atenção nele e no Thiago ao mesmo tempo. Com algum esforço, consegui me concentrar na conversa e fiquei aliviado quando chegamos ao final dela sem nenhuma interrupção. Assim que acabamos, Natan pediu pra participar. Aquela deveria ter sido a nossa última conversa do dia, ainda tinhamos que pegar um voo de volta pra São Paulo e estávamos bem cansados.

Some isso a indisposição que criei sem motivo nenhum e o resultado foi um não logo da cara. Dei uma desculpa esfarrapada na esperança de conseguir vencê-lo imediatamente mas, ele insistiu bastante, queria muito falar. “E aí?” me perguntou a Adriana. Ok, vamos fazer.

Quando ele começou a nos contar as histórias de sua vida, aquele olhar cheio de raiva continuava o mesmo. Parecia que ele estava puto com a gente. Eram histórias terríveis de quando ele estava envolvido com o tráfico. Histórias que, de certa forma, já tinhamos ouvido antes. Era como se estivéssemos assistindo a uma versão ao vivo de Notícias de Uma Guerra Particular do João Moreira Salles. Ele estava ali contando aquilo que queríamos ouvir, aquilo que ele sabia que nos chocaria.

A coisa mudou quando a Adriana começou a perguntar sobre ele. Não sobre o universo em que ele circulava, mas sim quais as coisas que lhe eram importantes. Nessa hora, dá pra ver claramente como ele fica feliz e aquele olhar de raiva vai embora e dá lugar a um sorriso. Ele fica tão a vontade que, no final da conversa, pediu pra fazer uma rima e chamou seu amigo pra fazer a base enquanto improvisava uma letra ali na hora. Foi fantástico ver isso.

Eu acho que ele nos deu um dos momentos mais bonitos do projeto até agora. Ainda bem que falamos com ele.

Daniel

Postado dia 27 de fevereiro de 2015
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Jack

"Eu estava inseguro, pedi um tempo e ele nunca mais voltou"
38 anos
Cinelândia, Rio de Janeiro, RJ

Jack falou muito sobre amor. Quando ele contou sobre o arrependimento de ter deixado o grande amor de sua vida para trás, dá pra notar a mudança em sua expressão. Logo que terminamos de gravar, ele estava assinando o documento de autorização de uso de imagem e disse: “Quem sabe ele vê esse vídeo e resolve me dar uma chance”

Daniel

Postado dia 19 de fevereiro de 2015
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O dia em que quase dançamos em rede nacional

danca

O Daniel me ligou:
– Convidaram a gente para participar de um programa de TV, ao vivo, no palco. Será que devemos ir?
– E por que não iríamos? -, retruquei.
– Lembra aquele cara que foi no programa da Ana Maria Braga, esqueceu de puxar o freio de mão do carro e quase a matou?
– Lembro. Por que?
– Não sei. Só sei que esta imagem me veio à cabeça na hora do convite -, respondeu o Daniel.

Por alguma razão, nenhum de nós nunca tinha visto o programa em questão. Liguei para a minha mãe, telespectadora assídua da atração. Perguntei como a coisa funcionava.

– Tem sempre alguém cantando e as pessoas dançam. Ai, Adriana, é muito animado! Eu adoro!

Fiquei bem preocupada. Posso ter algumas qualidades, mas a ginga e o talento para a dança não estão entre elas. Eu já podia me ver encolhida no sofá em posição fetal, enquanto o Carlinhos de Jesus tentava me arrastar pelo braço para a gafieira. E, depois de sucumbir para finalmente acabar com a luta, já via o meu rosto vermelho feito um pimentão refletido em milhões de telas Brasil afora, e talvez até eu tropeçasse nos próprios pés e caísse sobre a apresentadora, matando-a – a referência do Daniel à quase morte da Ana Maria Braga seria uma metáfora mediúnica.

Ligeiramente em pânico, entrei no site da emissora e li um texto que resumia o programa do dia anterior. Em determinado trecho, a matéria informava que um cantor se apresentou e, cheio de energia e entusiasmo, chamou geral pra sacolejar. “Todos caíram na dança”, informava o texto. Meu Deus.

Mandei uma mensagem no Face para o Daniel:
– Você não vai acreditar, mas as pessoas dançam no programa. Inclusive os convidados.
– DANÇAM? TODOS? – ele escreveu, assim mesmo, em caixa alta.
– Quando não dançam em pé ficam sentados, balançandinho o tronco.
– Liga pro Zylber e pergunta o que ele acha.

O Zylber também nunca tinha visto o programa.
– Ah, acho que vocês deviam ir.
– Mas será que não vai ser um mico? – perguntei.
– Não é tipo um programa do Jô, com umas pessoas sentadas no sofá, dando entrevista?
– Acho que tem sofá e entrevista, mas tem também uma atração musical e as pessoas ficam meio dançandinho.
– Velho, tem dançandinho?!? Então melhor não ir.

Mesmo assim, aceitamos. Combinamos que, se houvesse convite para dança, permaneceríamos sentados, com um sorriso meigo no rosto, e gentilmente diríamos que sofríamos ambos de unhas encravadas ou nossos pés estávamos dormentes, de tanto que ficamos na mesma posição.
– Não danço nem ferrando -, o Daniel disse.
– Tamo junto.

Na véspera do programa, a produtora me ligou. “Querida, a pauta caiu”. Notícias desse tipo – não é a primeira vez que acontece – costumam nos causar certa frustração. Naquele dia, senti algum desapontamento, mas com um gostinho especial de alívio. Finalmente, naquela noite, eu poderia dormir em paz sem ter o pesadelo de que estava rebolando diante das câmeras, feito a Carla Perez no programa do Gugu nos anos 90 (é absurdo e megalomaníaco, mas isso também me veio à mente).

Depois do cancelamento, o Daniel ligou a televisão e resolveu ver o programa no dia em que, se a pauta não tivesse caído, deveríamos estar lá. Mandou-me uma mensagem pelo WhatsApp na mesma hora:
– TÁ TODO MUNDO DANÇANDO!!!!!

Foi por pouco.

Adriana

Postado dia 07 de fevereiro de 2015
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Duas damas

Avenida Paulista, São Paulo, SP

paulista

Uma mulher de boné e óculos escuros perguntou o que era aquilo. Quando dissemos que era um projeto de entrevistas com anônimos, ela recuou.
– Não sou tão anônima assim.

Eu, o Daniel e o Felipe, um amigo que nos acompanhava, nos entreolhamos.
Ninguém reconheceu a figura. Ela deve ter notado.
– Eu me disfarço um pouco – disse, puxando a aba do boné para baixo.
Depois reclamou da falta d’àgua e partiu. O Daniel acha que era a Maitê Proença, mas eu aposto na Helena Ranaldi. O Felipe votou na Betty Faria.

Uma senhora de cabelos curtos e grisalhos passou diante de nós, no sentido Paraíso. Dois minutos depois, passou de novo, sentido Consolação. Dessa vez, parou. Explicamos o que era o projeto. Ela sorriu, pareceu interessada. Disse que trabalhava em um jornal. Perguntamos se ela não queria contar sua história diante da câmera. “Tenho que ir”, respondeu. Dito isso, acelerou o passo, até transformá-lo numa corrida digna da São Silvestre, entrou no primeiro ônibus que parou no ponto e sumiu.

Adriana

Postado dia 30 de janeiro de 2015
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Quando tudo dá certo

Rio de Janeiro, RJ

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Havia boas chances da nossa viagem ao Rio ser um flop completo. De manhã cedo, os aeroviários fizeram uma paralisação no aeroporto de Congonhas e parte dos voos atrasou. Não o nosso, que saiu na hora certinha.

Quando chegamos ao Rio, seguimos direto para a Cinelândia. Tínhamos combinado de encontrar o Raphael, repórter do jornal O Globo, nas escadarias do Theatro Municipal. Calculamos que, entre eventuais atrasos, a entrevista e a sessão de fotos, gastaríamos mais ou menos umas três horas. Raphael chegou na hora combinada, a entrevista foi direta e objetiva e a sessão de fotos, tão rápida quanto eficiente, sem que o fotógrafo pedisse ao Daniel que se pendurasse em uma árvore ou fingisse abocanhar a câmera.

Disseram-nos para comer no Amarelinho, com o alerta de que a cozinha não era lá essas coisas. O contrafilé estava honestíssimo e o chope, cremoso e gelado.

Pós-almoço, ao olhar para o céu, vislumbramos nuvens escuras. Preparamo-nos para encerrar as atividades antes do tempo, mas a garoa que caiu, fina e ligeira, por fim só nos forçou a fazer um deslocamente para um outro ponto da Praça Floriano, em frente ao Cine Odeon, onde a vista era mais bonita – e onde fizemos nossa primeira entrevista internacional desde o início do projeto, com Nuria, a chilena hermosa que ilustra este post.

Nosso plano era ficar por ali e voltar direto para o Santos Dumont, mas como o apurado da tarde foi excelente – nove entrevistas em três horas – ainda conseguimos ir para a Praia de Copacabana. Lá, teve até fila para falar com a gente.

Havia um outro plano: trocar de camiseta no meio da tarde, porque certamente suaríamos feito porcos em pleno janeiro carioca. Mas o dia estava ameno, quase fresquinho, e nem foi preciso mudar o figurino.

Dois minutos depois de entrar no táxi rumo ao aeroporto, caiu um toró daqueles de dar PT em equipamento de vídeo à beira-mar. Foi por pouco.

No check in da Avianca, furamos a fila de prioridade (!) por pura distração e tive impressão de que o Ary Fontoura, o próximo a ser atendido, dispensou-nos um leve olhar de desprezo. Depois da gafe, a atendente nos informou que um voo sairia dali a uma hora e poderíamos antecipar a volta pra casa. Deu tempo de comer pizza e tomar cerveja antes de embarcar – e, de quebra, ainda encontramos um amigo no saguão do aeroporto, o Alexandre, que nos contou uma história fantástica sobre um time de futebol inglês, o Corinthian-Casuals.

Se eu acreditasse em astros, diria que, naquele dia, eles conspiraram a nosso favor.

Adriana

Postado dia 25 de janeiro de 2015
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O Fale com Estranhos já tem um filhote, uau!

Em Portugal, três jornalistas inspiraram-se no Fale para criar o Conte sua História. Eles entraram em contato conosco e pediram autorização e algumas dicas para trabalhar com um modelo semelhante ao nosso.

Munidos de uma câmera, três banquinhos e uma placa verde onde se lê “Olá, conte a sua história”, Nilton Nunes, Renan Rabello e Taciana Sander vão para as ruas entrevistar anônimos. Eles começaram a trabalhar na cidade de Portimão, mas têm planos de rodar o país. Toda a sorte do mundo aos nossos companheiros d’além mar!

Postado dia 24 de janeiro de 2015
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Falamos com estranhos no rio

E foi muito bom! Estivemos por lá ontem e, a partir de segunda-feira, vamos começar a postar as primeiras conversas na cidade
Copacabana, Rio de Janeiro, RJ

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Postado dia 23 de janeiro de 2015
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