Talk to strangers

Estados Unidos, Middleburry College

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Dentre os projetos que inspiraram o Fale com Estranhos, um é o meu preferido: The Interview Project, do David Lynch. Nele, o cineasta norte-americano percorre o interior dos Estados Unidos em busca de personagens interessantes, alguns deles excêntricos, sobre quem apresenta um pequeno perfil, sempre na voz dos próprios.

No mês passado, passei alguns dias em uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos, Middlebury, em Vermont, quase na fronteira com o Canadá. Fiquei hospedada na universidade da região, Middlebury College. Eu acompanhava o meu marido, que participava de um programa como escritor-residente, e enquanto ele trabalhava eu batia pernas pela vizinhança, espiando as residências em estilo vitoriano erguidas em madeira – muitos imóveis, de fato, datavam de meados do século 19.

Em uma delas, pintada em azul claro e protegida por uma pequena cerca branca de madeira, morava um gato cinza, gordo, que passava o dia dormindo sobre um tapete felpudo na entrada da casa. A proprietária, uma senhora muito magra, de cabelos grisalhos e esvoaçantes, lembrava uma bruxa dos contos de fadas (minhas filhas gostaram da ideia e, a partir daquele instante, aquela virou “a casa da bruxa”). Alguns metros adiante, na estrada para a cidade de Burlington, um homem passava o dia sentado em uma cadeira diante de uma garagem atulhada de cacarecos. No alto da casa, um letreiro informava o ramo de atividades do senhor: Antiques.

Durante meus exercícios diários de voyeurismo, não pude deixar de sentir muita inveja do Lynch, que no comando do The Interview Project tinha acesso a todas aquelas vidas privadas. O que, realmente, faz a bruxa da casa azul? E o homem que cuida da loja de antiquidades perdida em uma estrada, por que resolveu dedicar a vida a vender coisas das quais outros se desfizeram? E as três loirinhas de bochechas rosadas que tomavam sorvete todas as tardes na vendinha da esquina, seriam elas irmãs? No jantar em família, sobre o que conversam com os pais? Comiam pizza ou peito de peru com legumes?

Minha curiosidade sobre a vida alheia, certamente um outro nome para o velho e bom mexerico, conduziu muitas das minhas escolhas, e o Fale com Estranhos é uma delas. O fator “rapidez” certamente torna o projeto único – acho fantástico quando alguém, mesmo apressado para ir ao trabalho ou voltar para casa, decide parar para conversar, rir e até chorar -, mas às vezes sinto falta de saber mais sobre a vida dos nossos entrevistados. Como será a namorada do Rafael, aquele que dorme de duas a três vezes por semana? E a Bruna, como ela se comporta enquanto dá aulas de física?

E no interior do Brasil, como é a vida privada de um agricultor do sertão nordestino e de outro, do Rio Grande do Sul? Quando me refiro à vida privada, falo em minúcias: quando a pessoa acorda, ela escova os dentes ou deixa para fazer isso depois de tomar uma xícara de chá preto? Julguem-me.

Além de espiar a vizinhança, também dediquei meus dias em Middlebury a conviver com os estudantes que, durante o verão, frequentavam a Escola de Português da universidade. Durante sete semanas, os estudantes participam de um curso intensivo para aprender o idioma. Fazem, inclusive, um juramento para não falar a língua materna no período de estudos. O resultado é realmente incrível. Gente que chega lá sem falar um simples “oi” termina a temporada de estudos se comunicando perfeitamente em português.

Eu conversava com muitos deles durante as refeições no bandejão da Escola e sempre queria saber o motivo pelo qual aqueles americanos, colombianos, indianos e mexicanos estavam empenhados em aprender o nosso idioma. Foi
Foi assim que surgiu a ideia de fazer o Fale com Estranhos por lá. Vocês vão perceber que há algumas diferenças no formato: eu estava sem o Daniel, e isso foi a coisa mais difícil do planeta Terra. Mas ele fez a edição do material, como sempre, e nisso vocês vão reconhecer o velho estilo do Fale com Estranhos.

Bom, espero que vocês gostem do nosso primeiro Fale com Estranhos gringo – e torçam para que este seja apenas o primeiro de uma série de tantos outros.

Adriana

P.S. Para conhecer o maravilhoso projeto do David Lynch acesse interviewproject.davidlynch.com

Postado dia 03 de agosto de 2015
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Nathália me fez pensar sobre o passado

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Eu estava com fome quando a Nathália chegou. Acho que era perto da hora do almoço. Ela e alguns amigos tinham acabado de sair da faculdade, então faz sentido, devia ser essa hora mesmo. Ela disse que seu maior sonho era trabalhar na revista Capricho. Logo depois, enquanto eu almoçava com a Adriana, a Editora Abril anunciava o fim da Capricho. Pobre Nathália, nunca vai conseguir realizar seu sonho.

Quer dizer, teoricamente ela ainda pode conseguir, já que o título continua em outras plataformas. O que acabou mesmo foi a versão impressa. Se isso vai dar certo ou não, não dá pra saber agora. O fato é que fiquei triste com o fim da Capricho impressa. Conheço muita gente que trabalhou (e ainda trabalha) por lá. O meu primeiro trabalho na Editora Abril foi na redação da Capricho.

Quando eu tinha a idade da Nathália, estava correndo atrás do meu primeiro estágio e fui fazer uma entrevista em uma agência de publicidade que ficava no Brooklin, zona sul de São Paulo. Era uma casa residencial perto da fábrica da Lacta que havia sido convertida em agência. Na recepção, havia uns 7 ou 8 candidatos esperando sua vez. Quando chegou a minha, mostrei meu portifólio magrinho que tinha apenas trabalhos acadêmicos para o entrevistador, que vestia um terno uns dois números maiores do que o adequado.

Ele me perguntou se eu achava que a publicidade passava por um momento bom ou ruim. Eu não tinha ideia do que dizer. Nem sei se eu tinha como saber aquilo aos 18 anos de idade. Pra falar a verdade, eu nem queria. Eu só queria participar daquele mundo que idealizava. Talvez Nathália tenha uma perspectiva profissional parecida com a minha naquela época.

Dia desses eu tive que fazer uma limpeza em casa. Estava precisando de espaço e então resolvi abrir as caixas de livros e revistas que acumulei durante os anos. Fiquei tentando justificar pra mim mesmo porque tenho uma pasta com recortes de jornal com matérias sobre bandas que eu gostava nos anos 1990. Centenas de revistas. 10 exemplares de um mesmo livro. A credencial de um show do Coldplay que eu nunca fui. Pilhas de edições de uma revista de música que eu editei com dois colegas no começo dos anos 2000 – esse talvez seja o caso mais grave: cheguei a contar 30 exemplares de uma mesma edição.

Ser adolescente nos anos 90 significava que você realmente precisava correr atrás de informações. A pesquisa era física. Você precisava sair de casa, comprar o jornal, ligar pra um amigo, ir até a biblioteca. Eu não estou me gabando disso, pelo contrário, estou um pouco embaraçado de lembrar porque parece que eu estou falando com um ar de superioridade, como se eu fosse melhor apenas porque vivi em uma época em que a tecnologia era menos avançada do que hoje. Eu sempre odiei gente que gosta de contar vantagem só porque nasceu antes de mim.

Acho que a Nathália também não sabe muito bem o que está acontecendo no jornalismo. E talvez ela esteja certa em não saber. Eu me formei em Artes Gráficas e tal qual meu gosto musical, havia um certo orgulho das pessoas nesse meio em falar sobre as coisas do passado. Era em tom de deboche que eu ouvia que quem nunca trabalhou com paste-up não saberia fazer uma revista direito. Trabalhei com fotolito, paste-up, catálogo impresso do Image Bank e mais um monte de coisas que estavam com os dias contados. Grande coisa. Talvez fosse melhor que eu nunca tivesse encostado nessas coisas e só me dedicasse ao que estava chegando de novo. Numa época de internet discada, eu nem imaginava o que estava por vir.

Concordei em jogar fora várias edições de revistas em que trabalhei. Eu tinha 3 edições da Playboy com a Fernanda Young na capa (joguei duas fora), 10 edições de um especial do U2 que fiz pra Editora Escala em 2006 (guardei só um), Dezenas e dezenas de edições da Trip. Aqui foi difícil decidir o que jogar fora porque a Trip foi uma das revistas que mais me influenciou. Depois de conhecer a Trip, eu tinha certeza de que queria trabalhar em alguma revista. Olha só, eu até trabalhei lá por um tempo! Foi meio ruim, mas tudo bem. Eu tinha a edição com a primeira matéria com o Sepultura e o novo vocalista (guardei), aquela edição com o buraco de bala (guardei, claro), aquela com o Luciano Huck pelado na capa (lixo) e uma com uma holografia do Ronaldinho Gaúcho (guardei, mas pensando agora, deveria ter ido pro lixo).

A verdade é que eu não tenho defesa. Nunca mais voltei a consultar essas revistas, elas são apenas um amuleto sem utilidade prática. Não são como discos que ao menos podem ser ouvidos (mas não vamos falar sobre meu acúmulo de vinil aqui). Elas me trazem segurança. Essa é a utilidade delas. Eu cresci em uma época em que você precisava ter as referências para quando precisasse delas e ainda tenho algum resquício dessa cultura em mim. Acho que é por isso que o fim de uma revista da qual eu nunca fui leitor consegue mexer comigo.

Daniel

Postado dia 02 de julho de 2015
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Fale com mais estranhos lendo

Livraria Cultura, São Paulo, SP

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Agora é pra valer: Tem Mais Gente Lendo e Fale Com Estranhos vão produzir uma série de vídeos especiais. Queremos saber quais livros marcaram a sua vida. Venha dividir suas histórias com a gente! Vamos gravar na Livraria Cultura do Conjunto Nacional em São Paulo, na próxima sexta-feira, dia 5 de junho, das 15h às 18h.

Postado dia 30 de maio de 2015
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Me Dê Um Conselho

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A melhor coisa daquela exposição de desenhos que eu fiz nas estações do Metrô de São Paulo não foram os meus desenhos, mas sim o caderno de assinaturas que ficava disponível para quem quisesse escrever algo sobre o trabalho.

Essa exposição se chamava “Poptogramas” e era baseada em um livro homônimo que eu havia lançado pouco antes. Uma das pessoas que escreveu no caderno reproduziu o logotipo do livro, mas alterou o nome para “Pintogramas”. Foi ali que eu percebi que o caderno era a verdadeira obra de arte. A partir daí, o que eu queria mesmo era ouvir o que as pessoas tinham a dizer.

Essa vontade de dar voz aos anônimos, que apareceu na minha vida com aquele caderno, continua viva até hoje no Fale com Estranhos. Foram quase 10 anos entre uma coisa e outra. E, no meio disso, teve o Me Dê Um Conselho.

Imediatamente após ler os recados que deixaram para mim na exposição, comecei a pensar em como coletar outras verdades populares. Então construí uma urna, coloquei um bloco de papel em cima e saí pela cidade pedindo que escrevessem conselhos. Na verdade, o pedido de um conselho era só um pretexto para cativar as pessoas a dividirem algo comigo. O resultado foi muito maior do que eu poderia imaginar – tanto em qualidade quanto em quantidade, porque no final do processo recebi mais de 3 mil conselhos.

Em 2012, eu lancei um livro com uma parte desses conselhos. Acontece que eu tenho tantas coisas que não entraram nessa compilação que, agora, resolvi lançar mais um volume.

É a primeira vez que vou tentar publicar um livro usando financiamento coletivo, o crowdfunding. Se você não sabe como funciona, eu te explico: você contribui com um valor em troca do livro (ou do livro + brindes, tem todos lá no site) e se por acaso o valor necessário do projeto não for atingido, recebe seu dinheiro de volta integralmente. Sem taxas, sem pegadinhas. Basicamente, você estará comprando o livro numa pré-venda e ao mesmo ajudando a tirar o projeto do papel.

Topa me ajudar? Além de me deixar muito feliz, você vai colaborar com um projeto 100% independente e receber um livro lindão em casa!

Para apoiar, acesse: https://www.catarse.me/pt/medeumconselho

Valeu!

Daniel

Postado dia 20 de maio de 2015
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Sargento Davi

Praça Silvio Romero, São Paulo, SP

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Uma preocupação que tenho quando vamos pra rua gravar é a de ter que convencer algum membro do Pequeno Poder – guardinhas, vigilantes e todo tipo de gente que tem uma semi autoridade sobre algum lugar e diz que “trabalha com o público” quando são perguntados sobre o que fazem da vida, o que estamos fazendo e se temos autorização pra isso.

Quando eu fazia o Me Dê Um Conselho já tive que me explicar algumas vezes. Sempre tentei evitar essas figuras porque é um saco falar com quem não te ouve e, além disso, não sei manter uma boa conversa no gerúndio.

Na semana passada, estivemos na Praça Silvio Romero e talvez eu devesse ter me lembrado disso quando decidimos que o lugar para fazer a filmagem seria exatamente ao lado de uma base da Polícia Militar. Naquele dia havia uma feira acontecendo na praça e o único lugar livre que nos sobrou foi aquele.

Bastaram alguns minutos para que dois policiais se aproximassem. Fiquei tenso e só ouvi o nome do primeiro: “Sargento Davi, tudo bem com vocês?”, disse o simpático oficial enquanto estendia a mão pra mim. Ok, são policiais de verdade, nada de pequeno poder aqui, mas mesmo assim preferi ficar na minha e deixar a Adriana usar sua simpatia para convencê-los a nos deixar continuar ali.

Ele perguntou o que era aquilo e, pra minha surpresa, achou muito legal e quis saber como poderia fazer para assistir aos vídeos. Demos um cartãozinho com o nosso site pra ele, que nos garantiu que iria entrar e acompanhar o projeto.

“Que ideia legal! É muito bom conhecer os outros, né? Gostei!”. Diante do entusiasmo do PM, até fizemos um convite pra que ele participasse, mas ele negou de cara porque disse precisaria de uma autorização pra isso. Uma pena, acho que teria sido bacana conversar com ele.

Daniel

Postado dia 11 de maio de 2015
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Às vezes é difícil

Rua da Quitanda, São Paulo, SP

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Desde que dei à luz, nunca mais li notícias que envolvam crimes contra crianças ou casos de mães que perderam seus filhos. Não dou conta. Se começo, por um esforço de romper a barreira, paro pela metade. Corro o risco de passar dias impressionada com o fato, ou acordar minhas filhas durante a madrugada para abraçá-las, na certeza de que está tudo bem. Se você tem filhos, sabe do que estou falando.

Por isso, sempre tive medo de que sentasse diante de nós alguém com um relato de violência infantil ou morte de filhos. Na tarde em que o João Vitor nos contou sobre o abandono pela mãe, quando ele ainda um garotinho menor do que a minha caçula, fiz força para não ficar pensando obsessivamente sobre aquilo, sobre as lágrimas do menino, sobre a dor, sobre a dimensão da tragédia. Naquela noite, foi a cerveja com os amigos cearenses que me salvou de uma noite cheia de pesadelos.

Dias atrás, no meio de uma conversa que seguia trivial, perguntei para Elza o que seus filhos, se é que elas os tinha, achavam de determinada atitude sua. “Eu tive um filho, mas ele morreu”, ela respondeu. Contou então que o garoto faleceu aos 19 anos, vítima de um acidente de carro. Há muitas coisas que fogem ao alcance da minha comprensão, e uma delas é como alguém pode sobreviver a uma situação dessas. Lembrei-me de quando entrevistei a atriz Cissa Guimarães, logo após a morte do filho Rafael, atropelado em um túnel do Rio de Janeiro enquanto andava de skate. Ela se mantinha firme enquanto falava sobre a dor, mas lá pelas tantas o relato começou a ficar tão triste, mas tão insuportavelmente melancólico, que eu fui a mais antiprofissional das criaturas e tive uma pequena crise de choro no meio da entrevista. Pedi desculpas, e ela as aceitou.

Eu ainda pensava sobre isso quando, logo após a conversa com Elza, Dina sentou-se diante de nós. Em menos de cinco minutos de papo ela revelou que também tinha perdido um filho. Também aos 19 anos, igualmente de acidente de carro. Se Elza parecia mais conformada, Dina deixava transparecer a dor de maneira muito evidente. Perguntei se ela ainda conseguia pensar em felicidade. Ela me disse que isso era impossível. Mas, como tem outro filho, precisa tocar a vida.

Das muitas coincidências que enfrentamos na nossa jornada falando com estranhos, essa foi a única que me perturbou. Não sou dada a crenças sobrenaturais, avisos do destino e, para meu azar, nasci sem o gene da fé. Mesmo assim, fiquei perturbadíssima com aquela dupla ocorrência de mães marcadas pela maior das tragédias, especialmente porque, naquele dia, a minha filha mais velha estava em uma viagem escolar pelo interior paulista. Como disse, não acredito em coisas do outro mundo, mas aqueles relatos me deixaram com um nó tamanho na garganta que, mal sentei para almoçar após as entrevistas da manhã, liguei para a minha filha – mas a ligação caiu na caixa postal.

Meu astral foi de mal a pior quando, no começo da tarde, entrevistamos o Renato, que contou sobre a morte do irmão. Só falta ser em um acidente de carro, eu pensei, antes que ele revelasse que fora assassinato. Por sorte, logo depois vimos o Israel, o simpaticíssimo vendedor de plantas. Pensando agora, acho que o fato de o convidarmos para dar entrevista, contrariando o inciso I do nosso regimento interno, foi, na verdade, um pedido de socorro. “Se rirem de mim, não me importo”, disse ele. “O importante é que fiz aquela pessoa dar um sorriso e esquecer dos problemas, nem que fosse por um segundo”, afirmou. Israel, meu caro, obrigada demais.

Adriana

Postado dia 30 de abril de 2015
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Correndo atrás

Rua XV de Novembro, São Paulo, SP

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Adriana, vou contar uma coisa que você não sabia: lembra quando conversamos com a Fabiane na Avenida Paulista e ela tocou uma música do Nando Reis no final? Eu pedi a ela que cantasse uma segunda vez, tá lembrada? Pois é, eu fiz isso porque havia esquecido de ligar o microfone quando ela começou a cantar #prontofalei.

Sempre que a conversa sai do padrão que estabelecemos com uma pessoa sentada o tempo todo as coisas podem sair meio erradas, como nesse dia da Fabiane. Isso acontece porque eu e a Adriana acumulamos várias funções enquanto conversamos e filmamos. Somos produtores, cinegrafistas, jornalistas e operadores de áudio, tudo ao mesmo tempo. Então é natural que vez ou outra a gente esqueça de alguma coisa, como ligar o microfone. Acho meio prepotente se classificar como “jornalismo de guerrilha”. Sempre que ouço esse termo penso em alguém que está cobrindo alguma guerra civil no leste europeu. Talvez a essência seja similar, com a vantagem de que não temos que nos preocupar com morteiros.

A nossa conversa com o Israel foi provavelmente a que mais nos tirou dessa zona de conforto. Ele fez malabarismos e cantou, então a gente teve que pensar bem rápido na hora de posicionar a câmera e o microfone. É importante fazer as coisas com um bom padrão técnico mas, ao mesmo tempo não queremos deixar a espontaneidade ir embora com muitos ajustes técnicos – até porque as pessoas estão no meio de alguma outra atividade quando param pra conversar e a gente não pode tomar mais do que os 15 ou 20 minutos que elas nos dão.

Quando ele foi nos mostrar suas habilidades, eu quis deixá-lo microfonado. Coloquei a lapela em sua camisa e escondi o transmissor dentro do bolso de sua jaqueta. Valeu a pena ter feito isso porque ele fez uns de efeitos sonoros que complementaram a performance. Assim que ele terminou as acrobacias, entrou em ação a Adriana Produtora pra pegar as devidas autorizações e passar nosso cartão com o endereço do site pra que ver a filmagem depois. “Eu não tenho Facebook mas as minhas filhas têm”. Aí ficamos conversando um pouco e fomos até convidados a acompanhá-lo em sua jornada de trem diária pra que ele nos mostrasse como carrega todo aquele aparato.

Assim que ele foi embora comentamos sobre a inusitada participação enquanto arrumávamos nossos equipamentos para a próxima entrevista. Uns dois minutos depois me veio uma sensação péssima. Tinha alguma coisa errada e então percebi: O MICROFONE! ESQUECI DE TIRAR DO BOLSO DA JAQUETA DELE! O Daniel Operador de Áudio tinha vacilado em seu trabalho. Segunda-feira no RH.

Saí correndo pelo movimentado centro de São Paulo. Israel tinha uns dois ou três minutos de vantagem naquele labirinto de calçadões e pessoas. Qual chance eu teria de encontrá-lo? Corri como se não houvesse amanhã e logo apareceu o primeiro problema, na forma de uma esquina. Ele seguiu reto ou virou à direita? Pensei naqueles filmes de detetive em que, no caso de um desaparecimento, eles se questionam: “Se você fosse o Israel, pra onde você iria?”. Se eu fosse o Israel eu teria voltado pra devolver o microfone, então obrigado por nada, filmes de detetive.

Resolvi correr em linha reta por puro acaso e aí me dei conta de que eu tinha duas coisas a meu favor: ele não andava muito rápido por conta de toda parafernália e eu tinha uma vantagem visual com todas aquelas plantas penduradas.Corri mais um pouquinho, e quase chegando à Praça da Sé avistei-o. Gritei, ele parou e consegui pegar o microfone de volta. Ufa! Senti um grande alívio e senti também que finalmente fiz valer a matéria que nosso amigo Paulo Vieira fez sobre o Fale com Estranhos em seu site Jornalistas que Correm.

Enquanto eu voltava para a nossa base, um cara que eu nunca tinha visto na vida fala para mim: “Esqueceu o microfone, hein?” Como é que ele sabia? Na hora nem dei muita importância porque estava muito feliz de ter o aparelho de volta mas, depois fiquei pensando em como é que esse cara sabia que eu tinha esquecido o microfone.

Adriana, precisamos mandar nossos funcionários de áudio e produção para um treinamento de reciclagem o mais rápido possível

Daniel

Postado dia 20 de abril de 2015
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O jornalismo e a vergonha

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Mostrei para um amigo jornalista o vídeo do Israel, em que eu e o Daniel aparecemos comentando os bastidores do projeto.

– Não gostei daquela parte em que você diz que tem vergonha de chamar as pessoas para darem entrevista – ele disse.
– Mas é a pura verdade, tenho mesmo. Não é que eu seja da Globo e as pessoas já saibam do que se trata. Tem toda uma história de explicar que é um site, um canal no Youtube, blablablá.
– Uma jornalista com vergonha de chamar alguém para dar entrevista? Me soa estranho – ele finalizou.

Fiquei pensando sobre aquilo. Será que eu deveria pedir para o Daniel fazer uma nova edição, sem aquele trecho? Será que o mais adequado seria escamotear esta minha fraqueza e sair por aí dizendo que “imagina, jornalista não pode ser tímido, jornalista é um tipo desinibido e cara-de-pau por natureza”? Será que depois disso nunca mais vão me chamar para fazer frilas de entrevista?

Depois de pensar por alguns minutos decidi que ia deixar o vídeo exatamente como estava. Pelo seguinte motivo: no Fale com Estranhos, a espontaneidade e a verdade são dois itens muito valiosos. Verdade, ressalte-se, que nada tem a ver com a autenticidade dos fatos, mas sim com a sinceridade como eles são contados (escrevi sobre isso meses atrás, aqui). Nesse sentido, assumir uma fraqueza como a vergonha, ainda que ela soe contraditária com a profissão que escolhi, parece-me muito coerente com o projeto. Se nossos entrevistados expõem suas dores, inadequações e angústias com tanto despudor, por que justo eu, uma das idealizadoras da história, vou bancar a durona?

Discordo também da visão segundo a qual jornalistas têm que ser Mulheres Maravilhas (ou Super Homens) cheios de si, com uma segurança por vezes cínica, que não se constrangem com nada. Acho que este modelo ruiu junto com o lide e com o mito, tão confortável para os empresários de comunicação, de que jornalistas são imparciais. O cenário ainda é nebuloso, mas tendo a acreditar que, nesta nova era, jornalistas devem ser mais humanos e acessíveis. Não tenho mais paciência para aquele tipinho de terno e gravata com um ar meio robotizado, com sua farta cultura de telepronter e um eterno olhar de superioridade. Imagino que boa parte do público também não.

E já que chegamos até aqui, reconheço: morro de vergonha de muitas, muitas coisas. Quando comecei a trabalhar na Playboy, queria morrer quando as reuniões de pauta versavam sobre grandes lábios da estrela de capa. Talvez achassem que eu sofria de algum problema circulatório, porque meu rosto vivia vermelho, prestes a explodir. Também tinha ímpetos suicidas quando meus editores na Veja (muitos, muitos anos atrás) me pediam para ligar para um economista de 80 anos às 2 da matina para checar uma informação – uma vez, um deles, acordado na madrugada de uma sexta-feira para falar algo sobre o PIB, me deu um esculacho tão grande que até hoje me dói os ouvidos.

A despeito de todas as dificuldades, acredito piamente que timidez e jornalismo não são incompatíveis. Assim como timidez e, por exemplo, artes cênicas. Nunca me esqueci de uma frase que ouvi, em 2004, do ator José Wilker, quando o entrevistei para a Playboy. Ao comentar o aparente sucesso de algumas celebridades, ele disse: “Na TV, confunde-se desinibição com talento”. Acho que no jornalismo também.

Adriana

Postado dia 18 de abril de 2015
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