Correndo atrás

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Adriana, vou contar uma coisa que você não sabia: lembra quando conversamos com a Fabiane na Avenida Paulista e ela tocou uma música do Nando Reis no final? Eu pedi a ela que cantasse uma segunda vez, tá lembrada? Pois é, eu fiz isso porque havia esquecido de ligar o microfone quando ela começou a cantar #prontofalei.

Sempre que a conversa sai do padrão que estabelecemos com uma pessoa sentada o tempo todo as coisas podem sair meio erradas, como nesse dia da Fabiane. Isso acontece porque eu e a Adriana acumulamos várias funções enquanto conversamos e filmamos. Somos produtores, cinegrafistas, jornalistas e operadores de áudio, tudo ao mesmo tempo. Então é natural que vez ou outra a gente esqueça de alguma coisa, como ligar o microfone. Acho meio prepotente se classificar como “jornalismo de guerrilha”. Sempre que ouço esse termo penso em alguém que está cobrindo alguma guerra civil no leste europeu. Talvez a essência seja similar, com a vantagem de que não temos que nos preocupar com morteiros.

A nossa conversa com o Israel foi provavelmente a que mais nos tirou dessa zona de conforto. Ele fez malabarismos e cantou, então a gente teve que pensar bem rápido na hora de posicionar a câmera e o microfone. É importante fazer as coisas com um bom padrão técnico mas, ao mesmo tempo não queremos deixar a espontaneidade ir embora com muitos ajustes técnicos – até porque as pessoas estão no meio de alguma outra atividade quando param pra conversar e a gente não pode tomar mais do que os 15 ou 20 minutos que elas nos dão.

Quando ele foi nos mostrar suas habilidades, eu quis deixá-lo microfonado. Coloquei a lapela em sua camisa e escondi o transmissor dentro do bolso de sua jaqueta. Valeu a pena ter feito isso porque ele fez uns de efeitos sonoros que complementaram a performance. Assim que ele terminou as acrobacias, entrou em ação a Adriana Produtora pra pegar as devidas autorizações e passar nosso cartão com o endereço do site pra que ver a filmagem depois. “Eu não tenho Facebook mas as minhas filhas têm”. Aí ficamos conversando um pouco e fomos até convidados a acompanhá-lo em sua jornada de trem diária pra que ele nos mostrasse como carrega todo aquele aparato.

Assim que ele foi embora comentamos sobre a inusitada participação enquanto arrumávamos nossos equipamentos para a próxima entrevista. Uns dois minutos depois me veio uma sensação péssima. Tinha alguma coisa errada e então percebi: O MICROFONE! ESQUECI DE TIRAR DO BOLSO DA JAQUETA DELE! O Daniel Operador de Áudio tinha vacilado em seu trabalho. Segunda-feira no RH.

Saí correndo pelo movimentado centro de São Paulo. Israel tinha uns dois ou três minutos de vantagem naquele labirinto de calçadões e pessoas. Qual chance eu teria de encontrá-lo? Corri como se não houvesse amanhã e logo apareceu o primeiro problema, na forma de uma esquina. Ele seguiu reto ou virou à direita? Pensei naqueles filmes de detetive em que, no caso de um desaparecimento, eles se questionam: “Se você fosse o Israel, pra onde você iria?”. Se eu fosse o Israel eu teria voltado pra devolver o microfone, então obrigado por nada, filmes de detetive.

Resolvi correr em linha reta por puro acaso e aí me dei conta de que eu tinha duas coisas a meu favor: ele não andava muito rápido por conta de toda parafernália e eu tinha uma vantagem visual com todas aquelas plantas penduradas.Corri mais um pouquinho, e quase chegando à Praça da Sé avistei-o. Gritei, ele parou e consegui pegar o microfone de volta. Ufa! Senti um grande alívio e senti também que finalmente fiz valer a matéria que nosso amigo Paulo Vieira fez sobre o Fale com Estranhos em seu site Jornalistas que Correm.

Enquanto eu voltava para a nossa base, um cara que eu nunca tinha visto na vida fala para mim: “Esqueceu o microfone, hein?” Como é que ele sabia? Na hora nem dei muita importância porque estava muito feliz de ter o aparelho de volta mas, depois fiquei pensando em como é que esse cara sabia que eu tinha esquecido o microfone.

Adriana, precisamos mandar nossos funcionários de áudio e produção para um treinamento de reciclagem o mais rápido possível

Daniel

Postado dia 20 de abril de 2015
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